domingo, 8 de novembro de 2009

O baque na realidade

Não foi com lágrimas nos olhos e a vista difusa que terminei Cem anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, pois em mil outras páginas desse livro eu pude - e motivo não faltou - chorar minhas emoções e não o fiz. No entanto, foi com o corpo trêmulo e o coração apertado que fechei esse livro e senti, então, o baque da realidade caindo em peso, como tantas vezes, ou sempre aconteceu, ao terminar um livro. Cem anos de solidão (faço questão de escrever o título com todas as palavras), entretanto, me absorveu e me dissolveu num mundo tão fantástico quanto real e, nessa mescla substancial, me deixou estonteado, guiando-me, num tom quase frio e impessoal, pelas vicissitudes de uma estirpe condenada a cem anos de solidão.

Tão logo já o elevei ao pedestal da minha cabeceira. E quantas vezes não abri a boca, surpreso, para exclamar que porra estava acontecendo ali e por que acontecia. Não vou nem espero divagar sobre o livro, escancarar uma verborragia de reflexões filosóficas, sociológicas, ou, enfim, elaborar um jargão psicanalítico de simbologias para estudar o livro. Mas o livro - ah, sei lá, não quero nem adjetivar nem declarar alguma coisa sobre o livro que é para não vulgarizar a coisa toda. É simples definir algo como bom ou ruim, mas isso é a simplificação simplificada de algo muito mais complexo do que maniqueísmos baratos. Tenho certeza que apreciei o livro, mesmo nos momentos tristes, diante dos impasses e do desfecho de alguns personagens, mas é algo além da definição prática e resumida da razão - e por isso apelo para as sensibilidades.

Não estando a fim de destrinchar sensações e defini-los racionalmente (por causa da hora ou porque não quero), vou deixando por aqui a impressão profunda que me estigmatizou a leitura de Cem mil anos de solidão. Eu na cama, e o livro na cabeceira.

Mas o baque na realidade é constante. Mãos invisíveis apertam o coração e toda a concretude ortogonal parece pesar na alma; a alma adensa-se e deixa prostrado o corpo. Eu li.

2 comentários:

nando disse...

Isso dói.

Luciano disse...

O estilo do livro é o do realismo fantástico, que extrapola o que se convenciona chamar de realidade.
Parabéns por suas palavras.
Luciano