quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As Ilusões Perdidas, um livro de Balzac

Minha namorada tem uma coleção museológica de livros de clássicos da literatura universal. Para se ter uma idéia, as traduções devem estar em sua primeira versão, são traduções de personalidades até ilustres da literatura, como Machado de Assis, Mário Quitana. São mais de 50 títulos, de vários autores. Dessa coleção, quase obsoleta no armário dela porque ela mesma só leu uns poucos, li a maioria e ela vive dizendo que serei o único a ler todos. Li os Sertões, que cheguei a dizer ser o melhor livro que já li (e ainda hoje reservo um pedestal especial para essa obra); li, pela primeira vez, o filósofo existencialista condenado ao extremismo, Sartre; li a obra mais desvairadamente insensata (e nem preciso dizer isso), Ulysses, de Jaymes Joyce, e modestamente (ou não, pois ainda podem me chamar presunçoso, apesar de tudo) digo: entendi uns 50% do livro; li Camus, Stendhal, Eça, e alguns desses livros que constituem, digamos, uma erudita formação literária. Se me perguntam se gostei de ler esses livros - sim, numa perspectiva menos crítica e mais superficial, gostei, mas admito as milhares de vezes que precisei de um dicionário.

Para mim, essa coleção tem algo de misterioso e reliquiário. Quando não tenho um Bukowski ou Kerouac pra ler, vou ao reservatório e escolho algum livro, às vezes por título, às vezes por autor, por ter visto em algum lugar qualquer indicação, não sei-não sei.

Chegou, então, a vez de Balzac. Já havia lido duas novelas da Comédia Humana (que, aliás, me parece não ter nada dele que preste sem ser da Comédia Humana) e já tinha uma noção de como era o mundo das estórias de Balzac. Um mundo não particular, inventado e muito menos fantástico, mas uma transcrição da realidade. Balzac retratou com bastante perfeição a sociedade francesa, tanto parisiense quanto provinciana, reproduzindo ou recriando alguns personagens históricos ou da aristocracia. Só para encher mais a bola do cara, Engels disse

em uma carta a Marx: "Aprendi mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século, inclusive nos seus pormenores econômicos (por exemplo, a redistribuição da propriedade real e pessoal depois da Revolução), do que em todos os livros dos historiadores, economistas, estatísticos da época, todos juntos".

Mas foi depois de As Ilusões Perdidas (o título resume muita coisa) que me surpreendi e me enchi de receio para próxima vez que for ler Balzac. É de pensar duas vezes. Esse livro me despertou uma raiva incondicional, uma raiva impotente, que se passou por aflição, por euforia, mas sempre impotente.

Esse livro, como eu disse a muita gente, é um baú de perfídias, uma semente que, semeada, faz brotar uma árvore já morta. Só por tocar, você esmorece, desbota, perde a cor, cai e morre, com tanto desgosto, tanta desgraça, causados urdidamente por ambiciosos. A trama se desenrola, basicamente, entre conspirações e astúcias, sob um mecanismo movido por ambição, no qual os personagens exprimem a necessidade humana de ascensão, de reconhecimento, de notoriedade na sociedade. Lucien (pois me nego a chamá-lo, por uma questão de frescura, de Luciano) é aquele típico ser revestido e investido por todas as características românticas, dotado de uma sensibilidade poética e de um profundo conhecimento dos saberes científicos e literários da época. O poeta, pois é por esse título que Lucien se apresenta à aristocracia provinciana, e é com ele que conquista o coração de Luísa de Negrepelisse, ou melhor, de Bargeton (pois já era casada ao se conhecerem - olha os sinais do acrônico fator adultério).

E inflado pelas promessas de glória e ascensão da vida parisiense, Lucien, ingênuo como é (e se não fosse não teríamos história, eu não teria me empolado de ódio, David Sechárd não teria sido preso e Eva não teria passado por tantos desgostos junto à mãe).

David Sechárd é amigo de Lucien, Eva é irmã deste e esposa daquele – esses três são anjos caídos no céu, daqueles bem infantis que carregam a cegueira da ingenuidade e da inocência ante a perfídia humana, que se deslumbram facilmente e são altruístas. David casa-se com Eva e, juntos à mãe, trabalham incansavelmente para suprir Lucien em sua campanha de ascensão e retomada do nome nobiliárquico. Sim, retomada, porque sua mãe, a Senhora de Rubempré, agora Senhora Chardon, já fora nobre, mas casou com um farmacêutico e seu destino alterou-se bruscamente.

Em Paris, Lucien enfrentará todos os empecilhos que adornam o caminho da fama. Descobrirá que ser escritor, naquela época, dependia de inúmeros fatores que envolviam a imprensa, os editores, comércio e de muita influência. E é aí que o livro me acomete, pois enquanto eu lia Bukowski e experimentava a sensação de querer ser escritor, mesmo presenciando Chinaski em todas as suas enrascadas, “enquanto miserável”, Lucien me mostrou um outro lado da coisa. É claro que as épocas de distanciam, mas o que é hoje o nosso mundo tecnológico senão uma globalização das competições, um acirramento da concorrências, no qual, mais do que nunca - e os meios de comunicação colaboram para isso - é acirrada a batalha ao mesmo tempo que niveladas as diferenças, em suas aspirações, em suas disponibilidades instrumentais. É, no entanto, aí que encontro um paralelo entre Lucien e Chinaski. Ambos passam pela miséria, pelo limbo (um pouco mais enxuto, no caso de Lucien, por se passar em Paris – que chiquérrimo).

Não queria resumir a estória, falar sobre os personagens, fazer uma prospecção da obra, por isso nem vou continuar. O fato é que o livro me deu muita raiva, raiva aflita e impotente, por fervilhar tramóias das mais torpes. Lucien parece ser guiado sob a lei de Murphy voluntária, de conspirações bem planejadas, de modo que ele seja torturado moralmente, economicamente e emocionalmente. E ele é torturado, sofre os piores desgostos, nas piores horas, nos piores momentos, e leva consigo todos a quem ama.

Enquanto Lucien representa a figura emblemática dos moldes românticos, a sociedade em si é corruptiva e apresenta personagens ignóbeis e um contexto tão complexo quanto real, que Balzac destrincha habilmente.

A sociedade é movida por engrenagens que se compõem mutuamente, mas nem sempre se interdependem, podendo uma suprimir a outra. Falo do Jornalismo e suas ligações com as áreas sociais. Balzac confere ao Jornalismo o papel de vilão-mor, enquanto seus integrantes são ou foram corrompidos por ele. É admirável que, num século concebido pelas mãos audaciosas da Revolução Francesa, em pleno momento da Restauração, de reacionarismo e coerção, o jornalismo detinha certo potencial ainda que embrionário. Balzac, nas palavras de um dos personagens, anteviu todo o poder que a imprensa concentraria: "O jornalismo está na infância, há de crescer. Tudo, daqui a dez anos, há de depender da publicidade. O pensamento tudo iluminará, e ele...", e dessa visão profética, conclui outro personagem: "Há de tudo crestar", "Fará reis", "desfará monarquias". Os próprios integrantes da instituição jornalística têm consciência do poder que guardam, e sabem o quão indigno é esse poder.

Balzac descreve admiravelmente os segredos do jornalismo, suas manhas, suas conspirações, suas campanhas contra e a favor de personalidades. Todas as desmoralizações são desvendadas. Do jornalismo, entendemos como funciona a indústria editorial e o comércio dos livros e dos teatros, dos jogos políticos e aristocráticos - onde a constante é o dinheiro, agindo desavergonhada e impiedosamente. Ou seja, entendemos como funciona a "troca de favores".

Lucien, carregando os anátemas do romantismo, que é a confluência proporcional da genialidade à ingenuidade, será destroçada pelas engrenagens da imprensa - pois tanto sábio e ambicioso quanto ingênuo, cairá nas perfídias dos inimigos, desvanecerá até esgotar-se diante dos tormentos torturantes previamente planeados. Lucien, abatido, tão logo se aproxima de Werther quanto desaproxima, por ser um personagem não romântico mas balzaquiano, pois Balzac habilmente confere realidade a ele, dispondo-o sob a dissimulação e o arrependimento, sendo este verdade para todas as horas mas que ainda assim não é desmistificado por aquele; um, porém, não exclui o outro, e, mesmo verdadeiramente arrependido, não é desinfeccionado dos vícios e das vontades que o levaram onde chegou. O momento do suicídio é o impasse que porá em prova a honestidade de seus sentimentos, de seu arrependimento, que se assemelhará às faculdades romanescas de Werther. No entanto, qualquer prova de dissimulação terá em si a ingenuidade e a involuntariedade de seus sentimentos e de suas decisões. Afinal, Lucien não é mau, mas tem suas ambições.

Balzac, afinal, nos dá um final feliz, algo como "viveram tranquilos para sempre", o que, além de atenuar a dramaticidade ficcional, aproximando a obra da realidade, tranquilizou um pouco a latejante angustia que me acometia. À família Sechárd são perdoadas as dívidas e quanto a Lucien, este volta à Paris, onde se passará a nova aventura, numa espécie de "continua no próximo livro". É, Balzac sabia prender os leitores.

2 comentários:

Maurício Seabra disse...

Eu estava pesquisando sobre Balzac para escolher meu próximo livro. Acabei aqui.
Seu texto é ótimo. Não abandone o teclado nunca, e boa sorte!
Meu trenho preferido: "Esse livro, como eu disse a muita gente, é um baú de perfídias, uma semente que, semeada, faz brotar uma árvore já morta. Só por tocar, você esmorece, desbota, perde a cor, cai e morre".

Unknown disse...

Renato Sereno, por si só, seu expressivo artigo a respeito de "Ilusões Perdidas" já é arte.