quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Eu, adolescente e o Cinema

Fui ao cinema, ontem, a um típico multiplex no meio do shopping center, onde se reúnem caoticamente grupinhos de adolescentes da nova moda. Fui ver Atividade Paranormal, filme cujo gênero (terror) não me apetece muito. No entanto, num espasmo súbito de coragem, pus-me em frente ao espelho, olhei nos meus olhos e disse: Renan, você irá. E fui, mais pela minha namorada do que por qualquer outra coisa.


Não acho que preciso narrar todas as vicissitudes, que ocorreram até certo ponto de forma amistosa e incólume; vou citá-las algumas, ao menos. Primeiro, tive de enfrentar uma fila caoticamente titânica para adquirir os ingressos. Os corredores se congestionavam quilometricamente, e quanto mais gente chegava, mais o lugar se obstruía. Esperei quase uma hora, sozinho, desolado, abandonado (enquanto Laura maquilava milimetricamente cada detalhe de seu rostinho lindinho, em frente ao espelho, na casa da sua prima). Inevitável e incrivelmente, me amparei nas telas hipnóticas do meu celular, jogando um joguinho tremendamente legal, enquanto a fila caminhava a passos raros. Afinal, chegou ela e a prima, deram um oi (tremendamente rápido) e foram almoçar (eram umas 17h30).


Bom, até aí, tudo bem, tudo tranqüilo, até encontrei um amigo porra-louca dos tempos que eu ainda estudava com mamãe na mesa de jantar, pra prova do próximo dia. Dos tempos, inclusive, que ele dividia revistas pornográficas com os amiguinhos (eu estava lá), e passávamos a tarde navegando pelas curvas vertiginosas e pela cútis resplandecente das mulheres nas páginas das revistas e na telinha do computador – tudo isso enquanto nossos pais se orgulhavam perante os amigos contando a eles que seus nobilíssimos, respeitáveis e dedicados filhos estavam reunidos, quebrando a cabeça num trabalho escolar. Verdade, mas não passava de uma verdade teórica, hipotética. Eu fui uma criança normal, nesse quesito, no que se refere à nossa sociedade masculinizada, construída à base do discurso imagético da pornografia.


Depois...


Tudo começou dentro da salinha (saleta) do cinema, que estava abarrotada (sem exageros, pois tinha gente sentada nas escadinhas, e eu estava entre essa gente). Possivelmente, venderam mais ingressos do que a sala podia comportar. Vários grupinhos tinham se amontoado em uma só fila de poltronas, e todos os jovenzinhos se sentiam acomodados e protegidos e, principalmente, deslocados. Todo aquele conforto e segurança propiciavam empolgação transbordante para horas de sarro e algazarra estridente típicos de adolescentes espalhafatosos da nova moda. Era de se esperar. Comentários de todo tipo ressoavam por toda sala; primeiro, eram dirigidos a eles mesmos, como se todo mundo ali se importasse com suas particularidades e girasse em torno deles. Depois, o sarro se dirigiu para todo mundo, grupinhos se interconectavam, discutiam e se xingavam no escurinho do cinema (o que garantia a segurança do anonimato). Tivemos de suportar suas extravagâncias. Aquilo, absolutamente, sem dúvida alguma, não era um cinema. Era um antro de cachorrinhos mimados por piruas mesquinhas e que latiam um para o outro sem poder se atacar.


O filme, enquadrando-se no gênero terror, obviamente tentava satisfazer (que modo mais estranho de garantir diversão) o público com suas cenas tipicamente aterrorizantes. E em cada suspense, em cada cena angustiante e tenebrosa, as garotinhas davam gritinhos estridentes que se confundiam com os gritos (se é que havia algum) da personagem no filme. Foi algo realmente interessante, acho até que boa parte dos espectadores se assustou mais com os gritos deles mesmos do que com as cenas do filme. E que filme – francamente, sinceramente – merda. É verdade que eu achei criativo, mas – vá lá – já temos a Bruxa de Blair. O filme se encaixa forçosamente no gênero terror justamente por causa do enredo e suas vicissitudes manjadas de qualquer filme de terror: o cara sarcástico e incrédulo, a garota que os espíritos perseguem etc etc. Ao menos a protagonista não é gostosa (haha). Isso, sim, foi original, apesar de que, nesse caso, as gostosas são imprescindíveis.


Todos aqueles adolescentes imbecilóides, superficiais, superfaciais, lançando risos insinceros, espalhafatosos, vivendo num mundinho cheio de verdades inconcretas – isso realmente não me interessava, mas eles eram chatos. Revestem-se de uma carapuça falseada, reproduzem idéias e personalidades e têm a coragem de insinuar toda essa superficialidade vazia para – agora vou apelar para o discurso manjado do pacato cidadão – para trabalhadores que só querem, no fim do dia, algumas poucas horas de diversão e relaxamento. Acho que todos nós temos a mesma sensação ao encarar uma dessas figurinhas repetidas que são esses adolescentes midiáticos (porque se vestem e se revestem de mídia, de propaganda), puras reproduções mecânicas de um sistema falho e inorgânico. São carcaças vazias, puras carcaças. Lacunas impreenchíveis. E, principalmente, possuem uma mentalidade socialmente apática. E, adivinha só, isso não é individualismo. Por fim, levando em conta os tipos ideais weberianos, caricaturalmente falando, são personas superficiais, carcaças vazias. Não quero, no entanto, que minha crítica se estenda a uma reflexão filosófica existencialista. Paro aqui, enquanto o texto ainda conserva o sabor de crônica.


Que o Sr. Anderson (dos filmes de terror), não leia esse texto.

3 comentários:

neTrop!k@lista disse...

´minha nossa... acho que você realmente não gostou da sessão.
abs

Cassionei Petry disse...

Escrevi sobre esse filme:
http://cassionei.blogspot.com/2009/12/inatividade-paranormal.html

anderson disse...

BEM, CREIO QUE COMO FUI CITADO MEREÇO UMA RÉPLICA... QUE ABSURDO, PRA NÃO FALAR FALTA DE SENSO E TATO (ALGO QUE DIGA-SE DE PASSAGEM FALTA NAS CONVERSAÇÕES DO O SENHOR RENAN) SE UTILIZAR DE ARTIFÍCIOS FÁTICOS DA SOCIEDADE PARA CRITICAR UM GÊNERO CINEMATOGRÁFICO ATINGINDO ASSIM SEUS ADMIRADERES... ORA É NOTÓRIA A TODOS A DEGRADAÇÃO DO JOVEM/NARCISISTA/TRIBAL DA SOCIEDADE MODERNA, MAS O DOM DE FAZER INDIVÍDUOS SE AMEDRONTAREM DIANTE DE ALGO QUE NÃO PODE ATINGÍ-LOS (AINDA QUE ENVOLVIDO NA FRASE´´BASEADO EM FATOS REAIS´´)É ALGO DE ADMIRÁVEL GRANDEZA E QUE NÃO PODE SER SUBJULGADO A ARTE DO HORROR PREVALECEU POR GERAÇÕES SE FAZENDO VALER DE SEUS CLICHÊS QUE SEMPRE AGRADAM OU DE SUAS SURPRESAS OFEGANTES POIS TODOS NÓS ESTAREMOS SEMPRE NOS ASSUSTANDO COM O ASSASSINO APUNHALANDO A JOVEM INDEFESA... OU TENDO CALAFRIOS EM IMAGINAR QUE OS BONECOS GANHEM VIDA A NOITE... OU QUE ESPIRITOS VOLTEM POR VINGANÇA... É MEUS SENHORES O TERROR EXISTE, E ESTÁ ALÉM DE TUDO ISSO, AGORA ME DESPESSO E DESCANSEM EM PAZ... SE PUDEREM...