segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

As poesias que não escrevi

Faz muito tempo que não escrevo poesia. As razões, suponho, calculo, vasculho, são tantas e nenhuma, tenho apenas uma noção vaga dos motivos específicos, mas a verdade é que as desconheço. Parece que a inspiração, às vezes lampejante em todo seu vigor, não falta, mas as palavras cessam na ponta dos dedos, se escasseiam, e penso envergonhado que não tenho muito a dizer. Quantas palavras, quantos versos desperdiçados em uma poesia que não deu certo, que não soou bem ao se reler? Me pergunto quantas pessoas morreram por não conseguir escrever poesia, por ter perdido subitamente a capacidade de escrever e não ter suportado o resto dos dias numa vida permeada de grandes desejos e grandes sentimentos, de amores e de improváveis acasos, ou de serenidade e paz, e não poder relembrá-los através das palavras. Não descarto a possibilidade de me tornar insensível a tudo isso, uma vida enrijecida pela indisposição das palavras, uma vida cujos principais momentos impressos na memória se desbotam, se apagam, embaçadas por uma névoa branca que invade e cerca os detalhes de cada imagem, a névoa imperdoável do tempo, tudo porque as palavras me faltam, e, aqueles momentos, não posso relembrá-los. Alguns versos surgem por vezes num lampejo, carregando o sentimento intenso do instante pregnante, mas se tornam logo vagos, frágeis, esmorecem por não se completarem em outros versos. E a vida torna-se enrijecida por não poder reviver tais momentos, senti-los novamente através das palavras, aquelas palavras que despertam com toda intensidade a memória distorcida pelo tempo, mas que, essencialmente, recuperam as sensações do instante. Lamento não ter palavras para acioná-la.

Ela me ligou ontem à tarde, na hora crepuscular, a preferida dos poetas, o céu esmaecia entre os prédios, o azul refluía pelo horizonte e o negro da noite se aproximava, eu na varanda desatento aos aviões, livro no colo, palavras em redemoinho, a paisagem, a mesma de sempre, de polígonos, quadrados e retângulos de cores frias e alguns pontos luminosos espalhados pela rua, os postes já se encontravam acesos, e o deslizar das rodas no asfalto, o zumbido que ecoava melancólico nos meus ouvidos seis andares acima do chão. Quando o celular tocou, batia o sono, e as palavras já brincavam afoitas diante dos olhos, embaralhavam-se, confundindo-os, criando novas imagens, situações diversas e arbitrárias, que não correspondiam às linhas escritas no livro. Eu despertei, vi seu nome no visor, atendi, oi tudo bom, tudo bem e você, te atrapalhei, não, ó tô te chamando pra irmos à praia mais tarde pode ser ou vai tá ocupado, pô tudo bem posso ir, massa, só nós dois, não o pessoal do curso tá indo, tudo bem, então tá tchau tchau, tchau, até mais, ela desligou primeiro, o celular na minha mão, encostado no ouvido, calado como se todas as palavras que eu queria ouvir tivessem cessado no último instante, ou se desviado por outra linha e se perdido para sempre no labirinto infinito das linhas telefônicas, no infinito ionosférico. Um vago desejo de não-sei-o-quê, uma vontade de me exaurir – de me descarregar, sim, eu precisava –, se apossou de mim e pensei, por um instante, em jogar pela varanda o celular. Mas tudo isso se passou em um ou dois segundos, e eu poderia jogar tinta no quadro, algumas cores frias, escurecê-las no preto e no azul-escuro e pincelá-las, besuntar a tela e dizer que era a imagem de um garoto com um celular no ouvido, livro no colo, sentado na cadeira da varanda diante do mundo. Diante da noite, que agora engolia tudo, e eu já não podia ler aquelas palavras negras nas páginas friamente azuladas de um livro vermelho.

Risos, piadinhas, boas conversas, risos. Caminhávamos à beira mar, quando, no horizonte distante, onde não se distinguia a linha que dividia o céu do mar, vimos a lua nascer atrasada, ainda que dissesse radiante boa noite, alaranjada como se o sangue fervesse dentro dela. No início, não a reconheci – e ela jamais me perdoou –, chamei a atenção dos meus amigos para aquela bola disforme que crescia lentamente, como uma explosão de filme hollywoodiano, como a explosão de uma bomba atômica que cresce no horizonte diante dos seus olhos e você já não tem tanta esperança, mas nós tínhamos porque era uma noite linda e agradável e nos diluíamos no ar frio que o vento trazia do mar. O que é aquilo, ela atenta à bola por entre nuvens que não se distinguiam como nuvens, apenas umas névoas que borravam todo aquele alaranjado, não sei, nossa que coisa estranha, e nenhum de nós conseguia identificar, e isso me lembrou o dia em que estávamos na casa de um amigo, na piscina que ficava na cobertura do prédio – muito, muito acima do chão – quando no céu, muito além dos prédios da cidade, em qualquer parte arbitrária que não fosse extremidade, surgiu de dentro de uma nuvem um brilho inesperado, como quando riscamos um fósforo, que atingiu seu ponto mais intenso e se reduziu a uma luzinha mínima de avião, e só então pudemos identificar aquela luz misteriosa, quando eu já de boca aberta revisava minha crença em relação a seres alienígenas e discos voadores e milagres cientificamente inexplicáveis e improváveis. Restituídos de nossa surpresa, começamos a palpitar, e mal entramos em consenso, é a lua, ela já se elevava imponente e solene, inalcançável no horizonte, acima do mar, coisa linda, obrigado Deus por uma lua maravilhosa, por uma noite linda como essa, mas você não acredita em Deus, isso não quer dizer que Ele não possa nos presentear com um espetáculo desses, e nós rimos e apreciamos aqueles minutos poéticos que transcorriam estranhamente rápidos demais e só poderíamos restituí-los através da memória. E eu não me afligia por isso, pois sabia que, diante de tamanha beleza, a memória só poderia potencializá-la, e eu guardaria aquela imagem, aquele momento, por muito tempo, até que, esclerosado, só me restasse isso dos tempos lúcidos da minha vida. Por um momento, tive vontade de perscrutar o rosto dela em sua admiração, se seus olhos brilhavam, mas o espetáculo já fechava suas cortinas, e eu só podia vê-la recuperando-se de suas emoções. Talvez estivesse tão surpresa quanto eu, mas aqueles momentos em que nos precipitamos em admirar um mistério que se desvendaria com o tempo, esses momentos são os que permanecem, os que guardamos para contar por aí sobre aquele possível milagre, mas que talvez não soasse tão surpreendente, tão esplêndido quanto nossa impressão inicial. Em mim, aquilo, sempre que me recordasse, causaria uma impressão semelhante à inicial, arrebatadora, ou ao menos a sensação de que presenciei um milagre enquanto fui ignorante, acreditaria nisso porque acredito que a vida é feita de instantes e que esses instantes perduram para sempre em nós, em todos os próximos instantes, e mesmo que se explique o fenômeno, o sentimento daquele instante ficará impresso para sempre.

Andamos até a pracinha e lá nos acomodamos no meio da grama. Sentimos o vento no rosto, o esvoaçar dos cabelos, e toda a poesia de um momento como esses, com suas piadinhas e nossas conversas evasivas. Uma cena me chamou atenção, quando sentamos na arquibancada da pracinha, e me tornei a ela com vaga curiosidade, nenhuma pretensão, e até mesmo com uma vaga consciência da atenção que eu concedia. Era um gatinho, mínimo ser, acuado sob um mínimo pedaço de chão que ocupava no meio da praça, entre pés e pernas que passavam e as chances de ser pisoteado e reagir segundo o instinto em seu estágio mais primitivo. Entretido ou amedrontado, não parava de lamber qualquer coisa no chão, e não olhava para cima, para aqueles gigantes, de jeito nenhum. Seu comportamento o denunciava, sua atitude impensada, inconseqüente, e ninguém o percebia. Quase me detive a acompanhá-lo pelo resto da noite, abstraído, quando fomos embora, para fumar nosso baseado longe de testemunhas.

Nessa madrugada, na outra, hoje, talvez um dia qualquer, ponderei comigo mesmo, em minha cama, antes de dormir, se minha infância não estaria desaparecendo. Talvez sim, talvez aquelas cores e aquelas imagens de outrora desbotassem, ou se perdessem por aí, se escondessem no recôndito da memória até que um dia, quando velho e não vivesse mais a intensidade dos instantes, apenas das recordações, pudesse vasculhar nela os resquícios de uma criança que já fora eu. Mas hoje penso na infância sem aquela nostalgia romântica que permeia os livros de recordações; só acho curioso como algumas coisas perduram. Se há uma cor que definiu a paisagem na minha infância, essa cor é aquela do final da tarde, quando a noite se aproxima, quando o céu desbota e há um silêncio que destoa da música de todas as outras horas, aquelas horas do dia preferidas dos poetas e que correspondem às melhores metáforas. E o ventilador girando na minha cara, enquanto fingia que pensava, mas apenas me deitava e escutava os sons da rua ou a musiquinha do vídeo game que quase nunca jogava. É preciso concordar, há um certo prazer em recordar, faz-me desaparecer, já que, distante do passado, apenas o observo e, no presente, não vivo, inexisto. É como se me destacasse do mundo ainda estando nele, ou melhor, é como se fizesse parte dele, em seu tempo de tempos imemoriais, inconcebíveis para nossa contemporaneidade.

Naqueles tempos, escrevia poesia e nem sabia. Fazia versos sobre coisas específicas e banais, carros a 100km/h, rodas de bicicletas, pássaros e árvores, sobre a rua onde eu morava, a única rua de terra dentre as quatro paralelas, que descia em direção à linha do trem, enquanto a avenida perpendicular a ela passava acima, bem asfaltada, e as casas pareciam prestes a serem tragadas para debaixo da terra, e eu, voltando da escola, caminhava até o meio da rua para descer solenemente como um superherói em slowmotion numa cena caótica onde ao fundo tudo explode e as construções desabam, e contava histórias, também em versos, dos meus personagens favoritos, meus fantasiosos heróis coadjuvantes, nunca centrais, pois minha inocente humildade de criança não se importava em competir pelo mais forte, pelo protagonista. Com meu escasso vocabulário, procurava a rima perfeitinha e quase não importava a concisão; desconstruía toda a oração em busca dela – fazia hipérbatos e nem sabia – e até às preposições era permitido o final do verso. E quantos versos não gastei dedicados às minhas paixões semanais? É engraçado, e parece exagero, sim, não é bem verdade, me apaixonei pouco quando criança – ainda lembro o nome de todas elas – mas tive um amigo que se apaixonava com uma freqüência inacreditável, e tinha uma aptidão para a dor do amor romântico que, com certeza, demandou mais versos que os que escrevi para minhas paixonites. Sempre achei que se tornaria poeta. Quantos amores não desperdicei, quantas hipérboles e clichês não usei, e o tempo que perdi, frustrado, impaciente como um poeta decadente, à procura da rima perfeitinha? Se me encontro diante da mesa, caneta na mão, papel estendido, penso que um dia fui poeta, uma criança poeta, e me surpreendo com aquelas palavras que surgiam da minha inocência e honestidade.

Um dia perdi todas as poesias que escrevi enquanto consciente. Impossível recuperá-las, talvez minha aptidão para a poesia tivesse sumido com aquelas poesias. Perdi a vontade, passei muito tempo escrevendo pornografia nas bancas da sala de aula, em homenagem aos alunos do colégio. Talvez tenha sido minha primeira tentativa de divulgar meus textos; eu não os assumia, escrevia-os no anonimato e eles se tornavam públicos como as frases subversivas nas portas dos banheiros. Eu não me importava, mas me sentia orgulhoso quando ouvia comentários a cerca deles. Além do mais, eu conservava o nome real de todas as pessoas a quem dedicava minhas fantasias sexuais. Ouvi chamarem o autor daqueles textos de pervertido muitas vezes, mas eu nunca quis ser apelativo: todas as minhas palavras eram sinceras em seus desejos.

Por que, se escrevia tanto naquelas bancas, não conseguia escrever poesias? Devo ter feito algumas tentativas, em minhas viagens de ônibus, ir para o colégio, voltar pra casa, comecei a me sentir à deriva daquele cotidiano, ainda que estivesse muito bem inserido nele. Deixava-me levar e talvez isso tivesse me acomodado. Não, chega de tentar investigar a origem do meu bloqueio criativo no âmbito da poesia. Sim, tentei muitas vezes escrever poesia, arrancava páginas do caderno, derramava algumas palavras, conseguia alguns versos, mas talvez não me sentisse satisfeito. Comecei a escrever poesias para depositar em ônibus, amaçava o papel, fazia uma bolinha e jogava por aí, ou simplesmente deixava a folha aberta descansando na poltrona. Um poeta anônimo, frequentador de ônibus, despretensioso, quem seria, quem poderia ser, seria algum movimento, algum manifesto para divulgar novos talentos, ou simplesmente para recuperar a vontade de ler, era apenas um estudante adolescente em crise de criatividade, acomodado, perdido entre os estudos e entre as indecisões dessa fase da vida. A verdade é que eu não pretendia decidir nada, nem estava em crise existencial, só uma vaga angústia de se sentir vivo em meio à indisposição das palavras.

Comecei a me desfazer em palavras.

Às vezes, à noite, numa dessas noites em que pondero comigo a vida, sou assaltado por uma inspiração e um impulso de escrever. Cautelosamente, no escuro, tateio com a mão a cabeceira, encontro carteira, chave, e outros objetos que costumo depositar lá e, finalmente, acho a caneta. Com cuidado, trago até mim e escrevo na outra mão o que andei pensando; tento ser o mais sintético possível, escrever de modo que no outro dia, quando acordar, consiga me lembrar de tudo que pensei. Escrevo na mão, sem enxergar, e as palavras são imprecisas, por vezes se atropelam. Às vezes, me levanto e vou até o computador, que está sempre ligado e eu só preciso ligar o monitor. Abro o bloco de notas e me ponho a escrever. É claro que as palavras, aquelas nas quais estive pensando durante o tempo de vigília, se perdem, mas o que me preocupa mesmo são as ideias principais. Tantas vezes me levantei pra escrever aqueles versos que surgem num lampejo, aquelas palavras que parecem se concatenar e se envolver umas com as outras de modo que produzam sensações, e tantas vezes me decepcionei ao visualizá-las no monitor, tendo que voltar frustrado à cama. Ou no outro dia, quando tinha escrito na mão a ideia que desencadearia todo o texto, e ao tentar desenvolvê-lo, as palavras se tornam escassas, não as encontro, a ideia não me parece mais tão boa, tão interessante quanto imaginava, e as palavras me traem, talvez me traiam.

Me pergunto se voltei a escrever poesia depois dessas tentativas. Talvez não devesse reler o que escrevo, é como se as palavras tivessem validade para mim, perdessem o vigor, e lentamente perdessem o sentido e a verdade, desvanecessem. Lembro daquela tarde em que ficamos calados, sentados na sombra daqueles coqueiros, diante do mar, quando nossos amigos mergulhavam e nossos pecados nos constrangiam; fumávamos e isso era a única coisa que nos ligava, compartilhar o isqueiro, e eu remexia na mochila, sem saber se pegava o livro para me distrair, ou o caderno para escrever os pensamentos e os desejos reprimidos, mesmo sabendo com certeza que, na hora em que derramasse a tinta da caneta na página, as palavras escasseariam. O silêncio se prolongou e nossos amigos voltaram, conversamos e rimos enquanto voltávamos pra casa, e você caminhou de costas, brincando com suas pegadas, invertendo a lógica das ações, como se assim voltássemos no tempo, como se, ao invés de voltarmos pra casa, as pegadas simplesmente fossem para debaixo daqueles coqueiros. E enquanto as pegadas dele voltavam, as minhas continuavam em frente, e assim nos desencontramos para sempre, pois as antigas pegadas que nos levaram ali foram inevitavelmente apagadas tanto pelo tempo quanto pelas águas do mar. E agora as palavras rememoram o que se passou, e parece que elas se escrevem por si só, como se se inventassem, como se se reinventassem. E sobre o tempo o que é que se pode dizer? Em quantos minutos depois um momento pode se transformar em passado, em memória? Quando, pensando bem, as coisas se transfiguram ou se esclarecem e aí percebemos o que aconteceu? Quando, naquele momento, sentados debaixo daqueles coqueiros, eu passei meu caderno de anotações e ele leu algumas palavras, e leu exatamente estas palavras que acabei de escrever, as confissões derramadas nestas páginas. E ele me passou de volta e eu li no seu rosto estas palavras e por isso eu as escrevo. E torço para que elas não tenham perdido sua magia.

Então... e se as palavras se perdem, desvanecem, então continuarei escrevendo, sem parar, para sempre, como os dias em que passamos juntos e a música tocava 16 horas por dia e parecia nunca acabar e não queríamos que acabasse. Não para, eu digo, e escrevo, sem parar, como o tempo que passa, o tempo que não para, e continuo escrevendo, enquanto o tempo transforma o presente em passado, e assim vou rememorando. Antes que elas me decepcionem. Vontade de desistir. Vou pra cama, lá as coisas deixam de existir. E assim acordo, tentado a escrever, ao mesmo tempo frustrado, exausto, e me deixo engolir pela cama, deixo meu corpo ser tragado pelo colchão, me afundar nas profundezas dos meus próprios sonhos derramados ali. E os dias se passam até que nós nos encontramos de novo, mas ele sempre em outro tempo, eu com ela, descansados da praia, ao redor nossos amigos, e nós estamos ansiosos para aproveitar a noite, porque a noite é uma criança devassa, e todos os espíritos libertinos começam a se exaltar. E eu penso quando poderei transformar isso em poesia.

Tenho lido tantos livros; cada um deles se torna um pouco de mim, cada um deles é uma experiência. Mas penetrar em seu universo, tentar desvendar seu mistério – é um absurdo. Quantas páginas não fechei, desnorteado, porque trouxe comigo mais uma experiência misteriosa, e porque me deixei absorver pelo seu mundo, apesar de não conseguir desvendá-lo completamente e por isso me senti um tanto quanto frustrado? Comecei a sentir cada vez mais que devia abandoná-los, deixar de ler, pois o mundo real é demasiado misterioso e complexo por si só. Mas é um erro, fugir é apenas uma solução fácil; deixei de tentar compreendê-los para senti-los, ou melhor, observá-los, deixar pairar meus olhos diante das palavras sem julgá-las, sem racionalizar mesmo o absurdo e a fantasia de suas situações. Tanto li Cortázar. E são tantos mundos que a mim se apresentam, já não me perturbo em desvendá-los, em compreendê-los, o mistério torna-se parte de sua natureza e de mim, e eu simplesmente os vivencio como o faço em meu próprio mundo, este que se apresenta diante de mim no fluxo do cotidiano, em seus milagres e mistérios.

Enquanto leio todos esses livros e me encontro num cantinho dentro deles, enquanto percebo meu mundo através deles, quando não faço parte de sua intensidade, de sua concretude, quando simplesmente observo, todos esses séculos que se derramam no nosso tempo – mas que tempo? – e tudo aparece num único instante, deixo-me pairar, abstraio-me, destoando diante da rapidez das coisas, e, então, sinto-me tornar cor. E quando, dentro do ônibus, à noite, percorro o caminho de volta a minha casa, e a cidade passa diante da janela, e eu tiro meus óculos e as luzes se expandem, e todas as coisas tornam-se embaçadas, se fundem, são apenas cores, a ansiedade desaparece, e nem a memória nem as expectativas resistem ao instante, e eu finalmente quase me esqueço de pensar. Minha mão, pela janela, acaricia o vento e parece flutuar, surfar em suas rajadas, parece autônoma, meus membros se fragmentam e, afinal, quase não existo. E tudo isso quase se torna poesia.

Cada vez mais me torno cor da cidade, não uma cor glamorosa, vivaz, que se distingue, mas uma cor que se matiza, que se esbate na monocromia da paisagem, do cotidiano; cada vez me vejo através de mim mesmo, abstraio-me, e me torno cor sob a luz e me apago no escuro. As lembranças se perdem por aí, os fantasmas se projetam no espaço, enquanto eu vivo os instantes, por minha juventude impensada e inconsequente e ansiosa.

O tempo – que tempo? – que atravessou séculos e que desemboca no nosso mundo contemporâneo, arrastando sua multiplicidade de informações, de culturas, de poesias. Em nosso tempo, o que podemos dizer, se todos podem dizer alguma coisa, se todos descobriram que podem escrever poesia, mesmo que não o façam em códigos verbais? Para que poeta em tempos de penúria, perguntou Holderlin, e para que, então, poetas em tempos de exuberância quando todos se sabem poetas, eu pergunto. Quando as informações não cessam e as palavras, jamais, e todos podem se pronunciar, porque sabemos que tudo é poesia, até os pós-modernos. E nossos próprios olhos nos confundem e tudo que precisamos fazer é redescobrir, é ver de novo e atribuir significados. Parei de escrever poesia por incapacidade, porque meus sentimentos estão de tal formas mesclados, felicidade e tristeza tornaram-se indissociáveis no espaço-tempo, que não conseguiria distinguir as palavras e suas acepções das minhas próprias sensações. Parei de escrever poesia e não tentei mais, jamais como ato de protesto, mas porque poesia não é palavra, apesar das atribuições românticas e sentimentais de nós (nós, por que não?), jovens poetas, jovens. Parei de escrever poesia porque posso ouvir minhas palavras na boca dos outros, porque posso encontrar o que quero dizer nos olhos e nas coisas em concreto, no silêncio das ruas e nas horas românticas do dia. Sim, tudo é poesia, basta olhar de novo, todos podem fazer poesia, os miseráveis, os rotos, os ignorantes, os ingênuos, aqueles prestes a desaparecer, as crianças serelepes hiperativas inconseqüentes caladas silenciosas com a inocência nos olhos e a esperteza nos atos e a verdade no coração, os intelectuais, os poetas do submundo, os poetas dos subúrbios, os homens de preto, os dias incontáveis – porque neles há vida –, a fome e a pobreza, os ativistas, os anjos, os deuses, os pseudo-intelectuais, os velhos poetas, os blogueiros, os jovens que incessantemente atualizam o twitter, os playboys, os ricos, os cachorros das madamas, o céu e a terra, os seres além-fronteiras, além-mares, além-mundos, os interplanetários, os sonhadores, os melodiosos, os bêbados deitados no próprio vomito, os cineastas do Central, as rachaduras nas calçadas, a prefeitura que tenta reconstruir a cidade, os pisca-pisca desregulados nas fachadas dos prédios, a falta de senso estético – mas tudo é sensação –, os abstracionistas, os meias-palavras, as menininhas Crepúsculo, Malhação, as prostitutas, os drogados, os estudantes, os terceiroanistas sufocados pelo vestibular, os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, os ônibus depois da meia-noite e a cidade que passa através das janelas com o silêncio e a vida latente, o chão que reluz à noite sob as luzes dos postes depois da chuva da tarde, a manhã que surge suavemente em seus diversos tons até que o sol se instale reinante sob nossas cabeças e o cinza nublado as nuvens carregadas se dissipem, os moradores de cobertura, os maconheiros, os maloqueiros, os pedintes, os cheira-colas com suas eternas garrafas nos narizes, os insones às três da manhã sentados na varanda a TV ligada reluzente, os programas chatos, os filmes dublados, os jovens atores, os velhos, os rangidos metálicos dos automóveis, o congestionamento nas principais avenidas e estradas e a vida que poderia surgir daí através de Cortázar, as cartas que guardam tantas palavras de amor e de perdão e de confissão e não são lidas, e são rasgadas, e são queimadas, e são retornadas, e são lidas através de visões difusas pelas lágrimas, os presentes rejeitados, aqueles que nunca foram dados, aqueles recebidos com carinho e cumprimento, os amantes nas lanchonetes, percorrendo os corredores do shopping center, as roupas que não couberam porque elas estavam gordas, ou magras demais, as roupas que não puderam ser compradas, as roupas que se desgastaram e foram doadas, os gestos simples, os pequenos gestos, os gestos que passam despercebidos, os amores da vida que não se reconhecem no corredor do banco, os apaixonados, os platônicos, os rejeitados, a primeira noite no motel da namoradinha, a primeira noite da virgem quando no mundo não há mais virgens, os santos, os demônios, os eremitas, os ascéticos, os sofredores, os crentes, os velhos cristãos dentro da capela ajoelhados palmas juntas rezando mil ave-marias pedindo perdão pelos pecados pedindo proteção para a família pedindo uma morte rápida e sem dor, os velhos que se sentam sobre as pedras em frente ao mar e se põem a ler (isso ainda existe) os clássicos ou os livros de fantasia Harry Potter Crepúsculo Brumas de Avalon ou os livros espíritas, a Bíblia aberta num cômodo especial no meio da sala, o café da manhã com a família reunida, os nerds, os viciados, os retratos da família espalhados pela casa, os retratos das antigas gerações, os sorrisos ingênuos, a verdade que transcende a matéria física, mas que parte dela, as luzes desfocadas através dos olhos do míope, o vento no rosto no automóvel em alta velocidade, a adrenalina, a sensação de que tudo é paz e tranqüilidade e que seu mundo e seu tempo são outros, e que as coisas para cada um são assimiladas, percebidas em seus tempos específicos, e as músicas, ah, algumas delas me fizeram sentir a verdade, as músicas nas rádios, cheias de ruídos e chiados, no som de alta potência, na balada, no fim da balada quando todos cantam juntos, bêbados, exultantes, satisfeitos ou não, cheios de alegrias que se derramam em forma de cerveja e lama pelo chão, o coração pulsando desejoso, o eterno desejo, incessante, incontrolável – um dia vai explodir –, os desejos e a ânsia de satisfazê-los que revolvem o estômago e sufocam o coração. Sim, todos podem dizer alguma coisa, quem sou eu para me por a escrever, então? E se sabemos que tudo se interdepende, e que o mundo não anda por si só, então que todos tomem seus próprios rumos, por que não? Se não há mais nada a dizer porque tudo já foi dito, só nos resta as redescobertas, captar o óbvio, mesmo em toda sua ambigüidade, viver a intensidade do momento, observar as coisas e se abstrair nelas. Pus-me, então, a escrever haicais.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Não tenho muito a dizer, mas há muito a ser dito.

Não tenho muito a dizer. Tudo o que poderia ser contado, tudo que tivesse realmente alguma relevância, não seria dito com tanta clareza, com todas as verdades possíveis que sobrecarregam os fatos, os instantes, ou mesmo a vida. Mas há tanto a dizer, tanto a contar, e ninguém para ouvir. E ninguém para falar. As palavras ressoam no vento, vozes distantes, contam histórias de quem veio e se foi, e cujos rastros se confundem com tantos outros mil que por ali passaram. Sussurros que se confundem na memória, que nos impedem de nos esquecermos, que tentam nos lembrar de alguma coisa que ressoa vagamente, mas que não se distingue e desvanece no tumulto avassalador dos nossos dias. Tanta coisa para se lembrar. E a memória sendo absorvida pelo tempo. O mundo poderia girar ao contrário.

Não, não me escutam. Agora que posso dizer algo, não me escutam. Deixam que o tempo passe e leve com ele a memória frágil que se descreve na história, mas que se perde no meio dos maiores eventos mundiais. Um dia, eu acordo e digo a mim mesmo: “acorde”, incrédulo e ainda desnorteado por ter deixado o abismo inefável dos sonhos e tombado bruscamente na concretude da realidade. Eu fugirei, um dia, e não precisarão me procurar. Estarei a sua frente, mas não estarei em mim. Nesse dia, o mundo terá, finalmente, me engolido.

Às vezes me pego quase abstraído num vazio atordoante, estendido numa plenitude etérea, num silêncio abismal. É quase como se me acolhesse o infinito cósmico, como se me aceitasse além da vida e das possibilidades materiais. Eu sumo, por instantes, desapareço, abstraio-me. Quando acordo desse delírio, é um baque. Sinto a respiração constante, interminável, que me confere vida, os pensamentos transbordam e se derramam, não consigo distingui-los e me perco nessa tormenta mental. Tento voltar àquele estado hipnótico e anestésico, mas não depende de uma vontade consciente, de um raciocínio calculado ou de um pensamento obstinado; é preciso distender-se e se deixar levar, mas quanto mais persisto nesse propósito, mais distante fico do meu objetivo. Afinal, desisto.

Li muitos livros, procurei neles alguma coisa que faltava em mim, ou que iluminasse com razão o vazio de ignorância em que sempre me percebi. Procurei neles momentos extáticos de lucidez, de compreensão, de verdade, e às vezes até os encontrava, mas eram paliativos inefetivos, pois percebia que não eram o tipo de certeza ou verdade que eu procurava ou precisava encontrar, mas respostas ou explicações que me distanciavam ainda mais do que eu gostaria de saber. Na verdade, desconhecia meus objetivos, meus propósitos, não sabia realmente o que procurava, mas pensava encontrar em cada resposta com a qual eu, em meu entusiasmo, me deparava e me identificava, pensando tê-la procurado durante tanto tempo. No entanto, novas dúvidas inundavam minha mente e substituíam as velhas às quais acreditava ter respondido. E assim não acumulava perguntas, mas respostas, explicações, diagnósticos, muitos deles, descobria anatomicamente as entranhas do meu ser, na ilusão de que eram limitadas. Porém, acredito, o cérebro humano é conjugado ao infinito do nosso multiverso e esconde incalculável número de mistérios. Por isso, sentia compreender-me, nesses milésimos delirantes, ao me abstrair nessa vacuidade de inconsciência, dormente, hipnotizado, distraído, acreditava compreender o infinito e o mistério da vida.

Eram apenas verdades indefinidas,mutáveis, verdades efêmeras que se deformavam em minhas mãos, ou que me escapavam como água e se reformulavam, se redesenhavam longe de mim. Sentia-me frustrado e cansado. E, de novo, as mesmas lacunas apareciam, ou novas surgiam. Aprendi com o tempo, e na verdade demorei a aprender, que tudo em que acreditava era inconstante e instável, mutável. Diluía-se com o tempo, desintegrava-se ou se transformava. Por isso, nunca aderi a nenhuma ideologia, religião ou filosofia de vida. Na maioria das vezes, os conceitos que fazia das novas crenças obedeciam a uma conveniência pressuposta e inconsciente. Todos os meus laços com a vida eram frágeis e insubstanciais. Nunca acreditei na vida, porque toda ela desembocava num mistério irrespondível e inevitável. A mim, a vida parecia nada mais que a reprodução de uma das milhões de vidas que uma vez floresceram neste mundo. Nada me era novo, tudo parecia repetir-se como um filme, como uma história revisitada infinitas vezes.

Lembro quando, em minha infância já adormecida pelo tempo e sufocada pela euforia da juventude, me escondia das pessoas como se fossem monstros. Eu não as repudiava; sentia, pelo contrário, uma estima parva de quem acaba de se descobrir consciente no mundo. Sentia certo medo, sim, mas não bastante para anuviar minha curiosidade. Observava a vida com ar sereno e, diria até, desinteressado, não com um olhar científico, como o de um antropólogo. Minha curiosidade se resumia a vê-los em suas mais diversas reações, em suas manifestações, não para catalogá-las, o que às vezes me era inevitável, mas para contemplá-las, admirá-las. Às vezes , não as observava com meus próprios olhos, mas me transportava para os delas. Eu não as via, eu procurava ver o que elas viam; na minha lógica cognitiva, o que elas faziam estava diretamente ligado ao que viam, e, devido a instruções prévias ou à freqüência do trabalho, soubessem exatamente a utilidade de cada objeto usado. Causa e conseqüência ligavam-se através da visão, o mundo só funcionava através dos nossos olhos – foi assim que entendi a visão como o sentido mais importante do ser humano. É claro que essa concepção transformou-se com o tempo, na medida em que meus sentidos se aprumavam a cada dia. Mas essa lição não me foi de toda descartada, compreendi com ela uma das verdades que mais me intrigam e das quais mais duvido: o mundo só existe na medida em que o apreendemos em nossos sentidos. Não cheguei a nenhuma nova conclusão, mas minha teoria demanda mais digressões, e não pretendo me estender nesse assunto.

Minha melhor diversão consistia em procurar esconderijos secretos, onde eu passava horas, aconchegado nos meus pensamentos. Sonhava com um abrigo onde eu poderia viver, cada vez mais distante, um lugar que me resguardasse do tumulto humano. Imaginava o lugar, via-me deitado, sonhando, ou brincando com meus brinquedos, ou com alguns amigos que pudesse trazer vez ou outra. Deveria ser um lugar à parte, protegido, onde nenhuma guerra pudesse o ameaçar. E eu levaria pra lá as pessoas de quem mais gostava. Em meu altruísmo infantil e ingênuo, imaginava, também, um galpão profundo, ao lado do meu abrigo, que abrigasse o maior número de pessoas boas, que mereciam a salvação. Eu não sei bem como faria para avaliar a bondade dessas pessoas, mas lembro que não me sentia confortável ao pensar que eu tivesse de selecionar os candidatos. E ainda assim, desejava a privacidade que um lugar à parte pudesse me oferecer. Quando pequeno não sabia, mas o que eu queria mesmo era me ausentar, ser um espírito num lugar à parte, um ser volatilizado, que se pusesse no mundo somente para observar, para assistir a um eterno filme que se descreve nas páginas da História, mas que se perde no fluxo interminável e inexorável do tempo.
Alguns desejos profundos jamais nos deixam, mesmo depois que a própria vida se revela em sua multiplicidade de escolhas, mesmo que ela nos ofereça novas possibilidades de prazer, novos desejos. Alguns desejos, me parece, são inatos. Hoje, vivo na oscilação entre o desejo do vazio, esse desejo que me acompanha desde cedo, e os ímpetos avassaladores e instintivos da juventude. A esses ímpetos, não os taxaria de vícios, termo bastante negativo para designar uma característica inerente a esse estágio efervescente da vida humana. Ainda que defenda a antilógica do nosso instinto, me apetece a comodidade que o desejo do vazio, o desejo de não pensar, de me abstrair, pode proporcionar. Estou sempre a meio caminho entre essas duas partes do meu ser, pois eu também sou desejo.

Na escola, nunca aprendi muita coisa. Na verdade, nunca me ensinaram nada, aprendi o que conseguia assimilar por mim mesmo e o que achava conveniente ou o que me interessava. Eles diziam, e tentavam nos fazer acreditar, que estavam construindo nossa personalidade, nosso ser social, mas a verdade é que nos exauriam de nossas próprias intuições, de nossa própria lógica. Eles esfarelavam qualquer autenticidade de nossa personalidade, e nos moldavam de acordo com suas teorias pedagógicas. Nunca me senti tão cerceado, e hoje sei disso mais do que nunca, como na escola.
E desde cedo, percebi minha incompatibilidade em relação aos grupos sociais. Talvez tenha sido rejeitado, mas a verdade é que eu me afastei, por conta própria, de qualquer relação. Lembro como temia meus colegas de sala e de como um sentimento de humilhação me perseguia, como fantasma, invisível como uma vaga sensação que, subitamente, se manifestava em toda sua intensidade, em qualquer lugar, sem qualquer razão. Certo dia, exasperado por ter de suportar mais um dia rotineiro de aula, decidi debandar do colégio e me ausentar no aeroporto da cidade, que ficava bem perto. Não lembro bem como esgotei as horas naquela manhã, mas não podia voltar pra casa cedo demais. Talvez tenha lido ou visto o trânsito escasso dos viajantes. Mas lembro quando surgiram na escada rolante, meus colegas de sala mais indesejáveis, os mais exasperantes, e lembro como me apavorei, pois me encontrava sozinho e eles sempre me ameaçavam ou me injuriavam. Temi como nunca ser humilhado ali, em público. Na escola, já estava estigmatizado e não me importava tanto ser xingado ou coisa assim, pois havia uma certa cumplicidade entre os próprios importunados pelo grupinho pop dos ‘malfeitores’. Do lado de fora, não havia leis ou qualquer tipo de proteção, eu não tinha em que me apoiar, como me defender. Na escola, mesmo que houvesse uma ameaça, uma tensão, era algo invisível, que somente se percebia, mas que não se expunha tanto. A humilhação pairava sobre os alunos, mas não podíamos delatar os ‘malfeitores’, pois, ao menos na maioria das vezes, a humilhação era apenas moral, não física, apesar dos empurrões discretos que nos davam pelos corredores. Naquele dia no aeroporto, me apavorei tanto que cheguei a me esconder por entre umas placas de metal que cercavam a mesa onde me sentava. De alguma forma, consegui tomar as escadas e sai do aeroporto discretamente, sem ser notado. Mas logo quando me vi na rua e pude sentir um instante milesimático de alívio, tive um dos mais fortes sentimentos de frustração e impotência que já tinha me assaltado. Tanto que lembro ter chorado durante todo o percurso para casa, e de ter passado a tarde inteira entre o sono e as lembranças amargas daquela manhã que eu remoia e que me revolviam por dentro. Sentia-me humilhado, e essa humilhação e o medo dos outros jamais me abandonaram durante minha adolescência. Tanto estropiaram minhas sensibilidades que me tornei um ser instável, hipocondríaco, oscilando entre as emoções intensas e a mera indiferença pelos acontecimentos da vida. Hoje, olho para trás, ainda que adolescente como sou, com um sorriso de deboche, penso o quanto fui ingênuo e temeroso. Minhas frustrações e decepções ainda me revolvem por dentro, mas não deixam de ser risíveis, são minhas piadas internas, palavras que fazem parte do meu ser, mas que, a mim, não me soam tão trágicas. Penso em como uma arma teria resolvido meus problemas: jamais teria hesitado diante de um daqueles garotinhos irritantes, e não me deixaria jamais ser dissuadido por qualquer sentimento moral ou honroso, não hesitaria em ser covarde. Teria disparado a arma.

Minha casa era o meu grande refúgio. No meu quarto, repassava na memória os acontecimentos do dia, estudava, brincava com meus brinquedos ou jogava videogame. Mas minha maior distração, que hoje se tornou a mais intensa das paixões, a mais indizível das boas sensações, era a música. Nem sei como descobri a música, essa é a verdade. Meus pais nunca estimularam em mim qualquer sentimento artístico, mas eu não os culpo por isso. A música se revelou para mim nos seus acordes mais banais e mais discretos, e foi se apoderando do meu ser na medida em que fazia vibrar as cordas mais sensíveis da minha alma. Eu não tinha aparelho de som, não sabia usá-lo e não possuía nenhum CD de música. O que ouvia, surgia de cantos misteriosos os quais não me preocupava em procurar. Escutava algumas notas e me deitava para acompanhá-las, já que surgiam vagamente, no meio dos rugidos sonoros da rua e da avenida. E quando não podia escutá-las bem, simplesmente colocava a fita de videogame no aparelho e ouvia as músicas que mais me agradavam. Começava a jogar certa fase do jogo só para ouvir a trilha sonora do mapa. E passava horas, horas intermináveis de grandes sensações e verdadeiras inspirações. Pois uma das primeiras coisas que descobri em relação à música, é que ela me inspirava mais do que qualquer coisa. Ela me enlevava a um nível espiritual de plenitude, de alívio e de evasão. Sentia-me escoar de meus problemas, de preocupações, sentia-me distender. É claro que só recentemente essas sensações mais intensas se tornaram mais frequentes, mais perceptivas; na minha infância, eu não parecia consciente bastante para notar tais sensações, mas isso não quer dizer que eu não as tinha. Só agora reconheço, conscientemente, sua importância e sua qualidade de arte suprema.

Meus pais se perguntavam porque eu passava horas deitado, com a TV ligada, e o jogo parado, sem nada fazer. Pediam que eu desligasse os aparelhos, para economizar energia, mesmo que eu me justificasse, dizendo que escutava música. Eu não compreendia que aquelas sensações eram mais importantes para mim do que a necessidade de economizarmos energia. Acabava desligando os aparelhos de TV e de videogame. Eu também me sentia bem cantando músicas de programas que via na TV, ou canções das rádios dos vizinhos. Alguns deles ouviam as mesmas músicas todo dia e algumas delas me agradavam; cantava todo enrolado as letras, pois mesmo que algumas fossem nacionais, eu não as ouvia direito. As canções, na medida que se repetiam, iam-se gravando na mente, viciosamente. Passava semanas com uma música na cabeça até começar a tentar esquecê-la – o que era um problema, porque, às vezes, nem dormir eu conseguia. Passava horas deitado, no escuro do meu quarto, tentando me desfazer dos pensamentos para finalmente alcançar o abismo dos sonhos, mas lá estava, tocando ininterruptamente aquela música tantas vezes escutada pelo vizinho. O pior é que as músicas que ficavam se repetindo na cabeça eram as mais desagradáveis, as que eu realmente não gostava, mas que possuíam alguma melodia penetrante.

Duas casas ao lado da minha, havia um aprendiz de piano. Os dias mais etéreos de minha vida, vivenciei no meu quarto, deitado, sempre com um caderno ou um livro que eu descansava no colo, enquanto ouvia soar vagamente as notas desconcertadas do pianista juvenil que adentravam pela janela. Entre os ruídos e rangidos metálicos dos automóveis na avenida, dos trabalhadores da ferraria ao lado, dos moleques que brincavam e gritavam pela rua, aquelas notas inocentes, amadoras, passavam quase despercebidas, suspensas no ar, mas se dispuséssemos nossa atenção nelas, escutaríamos sua melodia encantada, fascinante, apesar de errática e frágil. Aquelas notas pareciam vibrar indiferentes a tudo, pareciam desejar o vazio onde se dissipariam para sempre, longe de qualquer ruído, longe de si mesmas, mas continham uma sinceridade e uma humildade que me fascinavam e me hipnotizavam. Aquelas notas inocentes, que tentavam construir alguma melodia, interrompidas constantemente, que soavam como a mais pura e honesta expressão de um adolescente, tornaram-se, para mim, o emblema de minha infância. Se penso naquelas tardes, vejo-as como que suspensas no espaço-tempo, etéreas, num lugar à parte, quase oníricas, circundadas por uma áurea de nostalgia e de beleza. E a mim, me vejo como um ser insubstancial, que pairava na plenitude do nosso mundo, um ser feito de energia, inconsciente, que se conjugava ao infinito de nosso multiverso, que vibrava em harmonia àquelas notas. Mas reconheço que nem tudo era tão perfeito assim.

Assim mesmo, fui me afeiçoando à arte da música, apesar de jamais ter tentado obstinadamente aprendê-la. Talvez por falta de disciplina, talvez por falta de talento, reconheci que minha relação com a música era meramente de passividade; ela existia, para mim, para que eu a sentisse. É a única arte que jamais tentarei alcançar por profissionalismo; é para mim a única arte intangível, a suprema arte, a arte mais completa. Falar de mim, por exemplo, com todas as verdades, com plena sinceridade, seria impossível se apenas utilizasse os códigos limitados da escrita. Mas tudo isso eu poderia contar através da música, todos os meus verdadeiros sentimentos, tudo que penso. E mesmo aquelas notas constantemente interrompidas da minha infância, aquelas notas simples e inocentes, que por vezes destoavam entre si, formavam doces frases melódicas por entre os ruídos ásperos vindos da rua, e me inspiravam, me conduziam a um mundo suspenso, adimensional; eu mesmo, às vezes, encontrava nelas novas sequências melódicas, que ainda hoje resistem ao tempo na minha mente. Depois dessa primeira fase de descoberta, entendi que a música poderia falar o que eu queria ouvir, ou falar o que eu gostaria de dizer. Assim fui escutando músicas que falavam por mim. Hoje, com a quantidade de sensações, de experiências, de seres que fui acumulando, meu acervo de músicas tornou-se mais que eclético. Ouço de tudo, ou quase tudo, e sei que ainda há muito a ouvir. A música trilha a minha vida na medida em que acrescento em mim novas experiências. Hoje, digo deliberadamente: antes cego do que surdo.

Mas escrever é, para mim, um refúgio. Quando escrevo, me recrio. Imagino-me num conto e delimito minha existência às páginas desse conto, mesmo que não haja fim nem começo. E me pergunto até onde vai a transcendência dessa existência literária e paralela. Olho distante, para o fim da rua que se estende diante do meu prédio, e vejo pequenas luzes de carros que se movem e resplandecem melancolicamente por entre os galhos das árvores, e há um silêncio espectral e uma ansiedade que aos poucos é debelada pelo rugido sonoro que se intensifica na medida em que os carros se aproximam. Sinto uma ânsia, uma vontade de me exprimir e me espremer e me pronunciar. Uma vontade de escrever tudo, exatamente tudo, escrever infinitamente tudo. Penso e acredito, exultante, verdadeiramente inspirado, que posso escrever decididamente tudo e sobre tudo, com todos os mínimos detalhes. Mas, inevitavelmente, frustro-me por não conseguir distinguir as ideias, as palavras, por não conseguir escrever tudo de uma vez no exato instante em que minha inspiração se estende aos níveis apoteóticos. Transcrever a beleza das minhas visões, os ruídos arrítmicos, destoantes, anti-melódicos, que ouço, e que se transformam em música em mim, a excitação exultante dos meus sentidos, é isso que me agrada e é isso que desejo agora. Vejo, da minha varanda, os prédios, as luzes, a avenida e suas artérias, as escassas árvores, os escassos carros que transitam na madrugada, serenamente, melancolicamente. Sinto vontade de plastificar toda essa paisagem, tudo isso. Escrevo essas memórias para tentar me descobrir em minha infância, para talvez revisitar o caminho místico e ingênuo por mim traçado e quem sabe encontrar o momento exato em que me desviei. Se é que minha existência não descreve um traçado inevitável por entre as possibilidades da vida. Não falo de destino, não acredito nele. Mas sei que não tenho idade para analisar esse passado criticamente, sinto lacunas ao tentar responder algumas perguntas, olho para trás com um olhar inocente, puro, como que impressionado, o olhar equivocado de um jovem. Suspiro, e um ar gélido penetra minha pele com pequenas agulhas. Nesses momentos amenos em que minhas pulsões se aprumam, chego a compreender, conformado, a inexorabilidade da vida, e não me revolto. Simplesmente, deixo-me fluir, à deriva, deixo-me eclipsar, como se possuísse o silêncio resignado de um sol que há de se pôr no fim da tarde.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Instante (ou Segredos)

"Deus perdoa os que fodem", Tinto Brass.

Sempre achei que nunca contamos tudo. Aquele detalhe, um gesto, uma palavra, o olhar deflagrador entre todos os outros, a confirmação de que os olhares precedentes não se esbarraram por pura coincidência, por acaso, mas porque se atraíam. Talvez não soubesse dizer qual, dentre todos, foi aquele que legitimara alguma paixão e confessara a intencionalidade do gesto. Aquele instante infotografável, irregistrável. Talvez um sorriso. Talvez. Não existe lógica matemática que formule todos os gestos, palavras, sorrisos, insinuações que me levaram até ela.

Um tanto distante um do outro, sim, mas em algum ponto nossos pensamentos se tocavam. Em algum ponto adimensional, onde se desfaz, por leis inconcebíveis e específicas, a validade do nosso conceito de espaço-tempo. Sabíamos, no entanto, e é isso que importa, que nossos espíritos se tateavam e se descobriam. E quando nossos olhares se esbarravam, era porque precisávamos reforçar a linha que nos conectava espiritualmente e nos certificar de que essa linha não era frágil ou apenas um equívoco. Por isso o impacto: um soco no peito, uma mão que constringe o coração e que o tensiona com mil emoções, com todas as emoções que implodem de uma paixão. E por isso o suspiro depois que nos virávamos, cada um para seu grupo de conversa. Emergíamos de um estado quase hipnótico, apesar de milesimático; mas como um corpo que se afogava e finalmente encontrasse ar para respirar, a tensão se dissipava aos poucos e deixava seqüelas, vestígios. E a vontade de nos encontrarmos de novo no olhar.

Era uma troca espontânea de volúpias. O desejo alimentava-se dos olhares, nossos espíritos se atraíam, e nossos corpos sentiam a necessidade do toque. Distraíamo-nos nas conversas, nas piadinhas, e de vez em quando conseguíamos trocar palavras diretas: comentários irrelevantes, que se dispersavam e se desfaziam nos ouvidos, restando apenas o eco da voz do outro, como uma espécie de recordação, não para ser contemplada, não uma voz enaltecida e adocicada pela paixão, mas como uma identidade, que revelava mais de seu locutor do que as palavras ditas poderiam fazê-lo. E nessa linguagem polissêmica e incerta que é a troca de olhares, nos revelávamos e nos insinuávamos, nos comunicávamos verdadeiramente, num fluxo desordenado de consciência, de emoções, que não se distinguiam e que se confundiam no reflexo atordoante da íris, de onde não podiam transpassar.

Nenhuma fórmula matemática, até agora, só o desejo vago de descrever tudo, sem evitar, no entanto e infelizmente, a redução dos fatos e das impressões. Talvez poesia fosse a melhor linguagem para transmitir as sensações daquele momento, mas teimo em tentar revisitar os fatos através da memória, revivê-los e transcrevê-los. Eu deveria me calar. Algumas coisas guardamos somente para nós. Mas quando os sentimentos transbordam, é preciso desabafar e despejar o excesso em algum lugar. Escolhi o papel e por isso os garranchos e as manchas, a prova de que as palavras não conseguiram dizer tudo ou que se equivocaram no que disseram.

A madrugada absorvia os últimos ecos do dia, o silêncio da noite se espalhava pelas ruas. Só o bar onde estávamos era imune; a balbúrdia deixara ecos de palavras avulsas suspensos no ar, não se distinguiam as vozes, nem se identificavam os donos. Já ia a tantas a madrugada, a música tocava, mas era possível perceber os ruídos e as falhas das caixas de som. Apenas um murmúrio tranqüilo das conversas alheias, um murmúrio cansado da euforia de outrora. Sentia-se o ar gélido e úmido da madrugada, e os objetos faziam-se mais claros e resplandecentes para a visão um pouco atordoada pela embriaguez. Detrás de nossas mesas, as garrafas de cerveja se entulhavam, vazias, ou quase vazias, como tudo o que tínhamos para dizer ou poderíamos dizer. Chovia lá fora, uma garoa fininha, mas que entrava como frias agulhas na pele. Brincávamos com nossos cigarros e desmanchávamos seus pequenos e frágeis cilindros de cinzas, quando alguém se despediu para ir embora. Decidimos, então, irmos todos de uma vez.

Teria sido a distância espacial, mesmo pouca e transitável, desobstruída e sem obstáculos intransponíveis, que nos impedia de nos tocarmos? Beijinhos e abraços de despedidas, a cordialidade ingênua do aperto de mão entre amigos, até que ela se aproximou. Um pervertido teria aproveitado a oportunidade para satisfazer seu desejo táctil. Abraçamo-nos, com a cordialidade de recém-conhecidos, mas não com ingenuidade e intenções comedidas. E foi como um golpe psíquico, hipnótico. Nossos corpos ataram-se, enquanto nossos espíritos descarregavam cargas elétricas de efeitos atordoantes; nossas pulsões evadiam-se e era possível sentir o impacto sísmico que tremulava os corpos de um e de outro; nossas cabeças entrelaçadas, ela descansava a dela no meu ombro; um abraço cordial de despedida que se prolongou por pelo menos mais um segundo que o normal e foi suficiente para dissolver dúvidas e consolidar certezas. Senti seu cabelo e sua nuca, pareciam mais suaves aos meus dedos. Seu corpo parecia suspenso e entregue. Ao afastarmo-nos, seu rosto friccionou-se ao meu até as últimas células que circundavam os lábios; sua boca tão milesimaticamente perto da minha, e, no entanto, tão distante de um beijo, tão impossível, tão inalcançável. Até o último momento em que nos olhamos um nos olhos do outro, como se comunicássemos nossos protestos por essa oportunidade desperdiçada. Minha mão deslizou-se por seu braço, como uma última carícia que desejasse a eternidade daquele instante. Deslizou-se até a ponta de nossos dedos, e como ainda atraídos energicamente, esqueceram-se suspensos no ar por alguns milésimos.

Efeito atordoante que me deixou alheio por alguns instantes, enquanto nossos amigos combinavam a volta para casa. Não me saia da memória aquele abraço, seu corpo quase entregue ao meu, deixando-se suspender, desejando o etéreo, minhas mãos que deslizavam nos seus braços até a ponta dos dedos, e aquele último olhar. E pensava nas oportunidades desperdiçadas, nas possibilidades, nos finais secundários.

Ecos de gemidos ofegantes, o suor e a saliva libidinosa, o travesseiro, como um corpo indefeso, apertado e abarrotado entre os braços, os lençóis manchados caídos ao chão, o coração sísmico pulsante, pensamentos eróticos tonitruantes, desejos concupiscentes da ingenuidade infantil de quem desconhece o pecado, transe alucinante de quem chega ao limiar do sono e não consegue se libertar da capa negra de sonhos abismais que o encobre. Distração imprevisível que me pegava de surpresa; e eu me pegava absorto, observando o nada, e o desejo à flor da pele. Num eterno navio sem mar, sem terras à vista, só o pensamento distante, além, e o brilho nos olhos de quem sonha acordado. E eu flutuava na correnteza dos errantes, sem atenção para cachoeiras e redemoinhos, apenas à deriva, com a dor e a vontade de quem acaba de se apaixonar. Segredos que só a cama e o travesseiro guardariam como máculas. E que ressoariam para sempre nos ouvidos de quem os auscultasse.

Durante semanas, pensei nela. Não por estar apaixonado, mas pelo impacto do ineditismo do momento que nos uniu. Um golpe hipnótico atordoante. Diria que, se a vida não fosse delineada pelas veleidades do destino, teria sido produto dos acasos o fato de estudarmos no mesmo centro científico da universidade. E eu jamais a teria notado passar ao meu lado, como tantas vezes deve ter passado, pelo átrio ou pelos corredores do prédio onde estudávamos. O dia em que nos conhecemos nos marcou com magnetos que nos atrairiam sempre estivéssemos próximos um do outro.

O dia era assinalado pelas horas em que nos esbarrávamos, como uma relação discreta que tentava se adaptar a uma rotina, mas que nos divertia com a imprevisibilidade dos encontros casuais. Ainda que me sujeitasse a cumprimentá-la, com discrição e até uma certa timidez, na frente do seu namorado, não me importunava nem torturava a ideia de que ela estava comprometida. Conversávamos besteiras, quando nos víamos a sós. Eu tentava me aproximar, de alguma forma, mas talvez não fosse ousado suficiente para atravessar as barreiras da timidez e alcançar alguma intimidade. E quando eu a encontrava ao longe, enquanto percorríamos nossos trajetos particulares, cada um por seu caminho, sentia-me num filme, numa cena em slowmotion, nós dois no mesmo plano, os olhos dela nos meus, os passos e os ruídos sonoros não eram abstraídos de todo, mas abafados pela tensão do momento que obstruía meus sentidos e me deixava suspenso.

Tínhamos terminado as aulas, podíamos ir pra casa. No campus, pairava a melancolia do silêncio da tarde, e nós conversávamos futilidades. Ela disse que iria buscar alguma coisa em algum lugar e me chamou para irmos juntos. Entramos no prédio onde estudávamos. Subimos as escadas. Caminhávamos sozinhos pelo corredor. O sol escanteava-se por entre os prédios da cidade. O corredor estendia-se e já tínhamos percorrido um quarto do seu comprimento. E como nossos pensamentos confluíssem entre nós dois, telepaticamente, e as volúpias inflamassem nossos corpos e os magnetizavam, puxei seu braço e a beijei. Um ruído crescente tomou conta dos meus ouvidos. Não consegui aplacar a força tumultuosa das emoções; não houve distensão no ato. Como desmoronasse a razão, escutei o estrondo do abalo sísmico que atingira minha mente e o peso e a tensão do momento; me libertei das amarras da timidez e dos comedimentos sociais, mas não foi como voar, flutuar no espaço e deixar suspenso o espírito com a delicadeza dos amantes que, como penas, titubeiam no ar. Pelo contrário, mantive-me no chão, com o peso dos escombros da razão e de toda concretude da realidade. Mas fui correspondido.

Como descarregasse de uma só vez todas as vontades, com o ímpeto de uma pulsão desmedida, um vômito irreprimível, desenfreado, me afastei dela aturdido. Ela mostrou um sorriso de consentimento, de conivência, de aprovação, de paixão, de desejo satisfeito. Não sei. Nunca se sabe. Ela me apanhou pelo braço, deslizou por ele, como na primeira vez em que nos tocamos, e me levou à sala mais próxima. Entramos e assim que a porta foi fechada, ela me beijou de novo. Com as carícias ávidas e afoitas, tentamos satisfazer a necessidade premente de nos tocarmos, de sentirmos a pele um do outro a cada milímetro, em cada célula, uma vontade de pairarmos na plenitude do corpo um do outro. Era uma ânsia insaciável, ofegávamos, beijávamo-nos, mas o desejo transbordava nos corações, e não sabíamos de onde vinha a fonte que nos abastecia as paixões. Puxei sua blusa, que deslizou corpo acima, enquanto ela levantava os braços. Desfiz a ideia de jogo de turnos e eu mesmo tirei minha camisa, enquanto ela se desfazia das calças. Depois, ela tirou as minhas calças, e levou junto o que tinha por baixo. Ela me conduziu até uma banca, num leve empurrão com as pontas dos dedos, e ajoelhou-se diante de mim.

Nossa paixão durou os milésimos que um relâmpago demora a rasgar o céu, na mesma intensidade, com a mesma carga elétrica. Ela começou a me evitar, como se relutasse contra o desejo passageiro e incerto que alimentava nossa paixão, em favor do seu amor que quase pairava inerte num marasmo idílico, mas que tinha se modelado aos dias e às necessidades suas e de seu namorado, e não teria de sobreviver a tormentas e instabilidades da alma. Depois que transamos, naquele dia, ela me perguntou, quando já estávamos vestidos: “você acredita que eu amo meu namorado?”, e disse isso não como quem sente a culpa corroer-lhe a alma e deseja desabafar para aliviar a dor do remorso, mas como quem busca conivência e se sente à vontade para, francamente, deixar as coisas claras. Não duvidei, não duvido, hoje, e a admiro por não ter se arrependido. Eu me enviesei pelas armadilhas e ilusões de uma paixão que arde e inflama os sentidos e diz-se reconhecer como amor, mas que, afinal, não se realiza como tal. A verdade é que nunca acreditei no amor como uma pedra rara que se encontra nos confins do mundo, nas entranhas da terra, e que fosse única para cada ser humano. Para mim, bastaria a centelha daquela paixão que senti no dia em que nos conhecemos para acender algo mais, para nos enlevar, para, quem sabe, acordar em nós o amor.

Ainda nos encontrávamos quando comecei a namorar outra pessoa. Ela tentava me evitar, mas algo em nós pulsava e respirava ruidosamente. E só precisávamos nos encontrar, a sós, nos esbarrar por aí, para que a paixão reacendesse e acordasse com uma força que nos feria a carne. Sabíamos dos riscos, mas era implacável. Às vezes, andávamos juntos, eu com minha namorada, ela com o seu, e alguns amigos. Para não expor o grau de intimidade a que chegamos, evitávamos demonstrar provas de amizade incriminadoras. Talvez, a única coisa que nos denunciava estava no olhar, na maneira de como nossos olhos se encontravam, de como se olhavam e se enamoravam. Mas tudo que tínhamos para comunicar, através do olhar, dizíamos em poucos milésimos, de modo que seria impossível descobrir nossos segredos sem que se congelasse o instante exato em que nos olhávamos para analisar o brilho em nossos olhos que denunciava todas as intenções.

Deixamos de nos encontrar a sós. Rompemos. Como uma substância volátil, nossa paixão se expandiu e se destilou. Apenas um cheiro etílico forte pairava no ar, que ainda podia exercer sobre nossa carne um desejo, mas que evitávamos com certa maturidade. Nunca reprovei nossa relação, os impulsos voluptuosos que nos fazia transgredir as convenções e pular a cerca. Nunca entendi isso apenas como imaturidade, ímpetos descontrolados de um jovem; eu aceitei minha natureza e a tudo que ela estivesse predisposta. Não tenho remorsos. Teria costurado a vida de outra maneira, se a linha e as agulhas estivessem em minhas mãos. Teria continuado. Mas o tempo se encarrega de tomar o que dar, de unir e de separar, de construir e destruir.

No meu travesseiro, ressoam os sussurros longínquos que me recordam, no frio e no silêncio da noite, mesmo no recôndito do meu sonho, os segredos de um passado tão recente quanto remoto. E como um determinismo que atua sobre os sonhos, paira na atmosfera onírica um sentimento de nostalgia que me obriga a olhar para trás, mas que se evola no ardor das novas paixões que se personificam dentro de mim.

Não mais tento entender. Como tudo se desenrolou. Nada começou, nada terminou. Como palavras de um livro que escasseiam antes do ponto final, do desfecho. Como a tão pronunciada e banalizada frase, “a vida continua”, mesmo que aventuras como essa a permeiem sem permissão. Tantos acasos, tantas equações. E se não fosse o cálculo probabilístico, única matemática possível para equacionar o problema dos acasos, jamais saberia mapear o caminho que me levou até ela. E mesmo a probabilidade não poderia traçar nossos trajetos com precisão, pois faltariam os termos que identificariam as incógnitas da equação. Ainda não posso resolver essa questão.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Minha alma não tem nome

1. Me sinto como um tiro no escuro. Vejo vagamente, nos poucos milésimos de claridão, o corpo que será minha vítima. Não o reconheço. Não sei bem o que vi. Será que o vi? Espatifo-me. Tenho muitas possibilidades, nenhuma delas é um objetivo. Um tiro cego, arbitrário, uma bala perde-se no escuro, espatifa-se – não sei em quem ou em quê. Por que não vejo? Se me tiram a venda dos olhos, descubro-me num quarto escuro, sem portas e sem janelas. Apenas um cheiro úmido e um ar refrescante me acolhem e me fazem acreditar que não estou numa câmara hermética, asfixiante. Tento apalpar as paredes da minha existência: são frias, úmidas, são, além de tudo, desoladoras. Não precisei de mil filósofos nem mil sábios como conselheiros para que essa verdade, em tom catedrático e religioso, me fosse revelada. Ela compete só a mim, e sou eu quem a sinto; é uma verdade que me foi transcrita pelas minhas próprias percepções; assim me foi dita, traduzida, revelada. Sou eu quem a vivencio do modo como o faço. Minhas palavras talvez não digam nada, mas eu as escrevo com o sentimento que me é infligido por essa verdade. Sou eu quem as escrevo, não é mais ninguém. São verdades minhas. Tão bem como poderiam ser suas.

Uma porta branca se abre e uma luz cálida e calada invade a sala, revelando seu assoalho desgastado e carcomido. Nada mais, apenas uma sala vazia, empoeirada, desolada. As paredes estão úmidas e mofadas, parece que respiram; recendem um cheiro de coisa antiga; lá dentro o ar é quase rarefeito. As janelas estão fechadas e lacradas com madeiras – alguém quis vendá-la. Minúsculas fibras de poeira flutuam vagamente e refletem à luz do sol. O assoalho está empoeirado. Alguém entra em passos tímidos e curiosos. Espero que se revele: sou eu ali. Assusto-me. Percebo um redemoinho de poeira subir acima do meu allstar emboçado pela terra úmida por onde passei. Intimidado, enfrento as aparências tão pouco convidativas da casa. Procuro me familiarizar assim mesmo; percorro o olhar por todos os cantos; não há portas, mas percebo entradas para outras salas. Afinal, descubro que não há nada em todas elas, em todas as salas. Tenho dúvidas; por que trancafiá-la? Ou vendá-la? Por que abandoná-la? Quais os segredos que ela encerra? São os meus.

Me sinto só, longe da civilização. É como a casinha da árvore da nossa infância, nela eu podia contar meus segredos, podia sonhar, pensar, refletir em paz – longe de tudo que me desagradava, longe da minha família, da minha própria realidade, principalmente quando tudo isso me aborrecia. E de lá, eu podia contemplar e sentir. Aqui me sinto livre, livre de convenções, de regras, de moralismos empáficos. É um lugar estranho, mas não tenho medo. Pelo contrário, me sinto protegido. Aqui posso revisar minhas ideias, posso me auto-avaliar. Hoje, não tenho mais vontade de contemplar, minhas sensações agora se satisfazem a partir de outros sentidos, do tato principalmente. Agora eu necessito de ações, meu corpo se adaptou à velocidade do nosso século, à precisão e à objetividade que a tecnologia proporciona. Mas a atmosfera sombria e desértica me acolhe.

Estranho. Tenho vontade de cantar.

Eu? Sou eu mesmo ali?

Senti em milésimos vívidos o que eu chamaria de liberdade. Não saberia dizer que sensação é essa, acho que não se explica a liberdade. Da História, ouvi dizer que se lutou muito por ela. Não me importo com isso. Seria insincero se isso realmente me chamasse atenção, ou se por isso eu lutaria ou morreria. Acho que sou, ou ele é, um adolescente do nosso século, tratado sob as convenções do individualismo. Eu não sei bem. Nem quem eu sou. Nem se sou. Senti, então, minha respiração límpida. Na verdade, tive vontade de respirar, não com o desespero de quem se afoga, mas exultante, como quem é acometido por um lapso de consciência de vida.

Voltaria outras vezes àquela casa.

2. Eu quis dizer: me sinto purificado depois de ser corrompido. Poucos aceitariam essa ideia. Não sei se a aceitei, isso não pode se resumir a um assentimento voluntário, é algo mais volitivo, mais instintivo. Não acredito nisso também. Criei a noção básica de que meus desejos e minhas necessidades são consequências de um condicionamento processual que envolve tanto a cultura quanto a família. E quando falo disso, quero enfatizar bem a noção de valores morais e éticos que nos são incutidos durante todo o processo de formação individual. Mas, em circunstâncias tão curiosas e tão ricas em possibilidades, não me proponho a discutir isso. A verdade é que sou a bruta definição de um egoísta: faço o que me agrada, faço o que quero fazer. Um hedonista. Mas eu me desafio sempre que posso.

“O que você sentiu?”. “Não sei”. Não sei. Ela não soube dizer. Não sei, não sei. É o espírito da incomunicabilidade que assola nosso século. Perguntei corajosamente, inescrupulosamente. Ela me respondeu com uma inocência que prescinde de escrúpulos e de coragem. Respiramos o mesmo ar, nos tocamos, eu a penetro e nossa alma se funde – mas ainda me pergunto que direito tenho sobre ela. Ela mesma não saberia responder. Ficamos calados, incomunicáveis, inexpressíveis. Tento não modificar os trejeitos do meu rosto, porque ela pode confundi-lo, enganar-se quanto ao que sinto. Ela também teme que eu me engane, acho que ela pretende assegurar, por mim, o amor que sinto por ela. Acho que ela quer me dar certezas. Muitos achismos não identificam nem de longe indicam certezas. Enquanto isso, não sabemos de muita coisa. Eu acho. E só. A certeza, para nós, é imponderável, é líquida e de minhas mãos ela escapa. É como se fôssemos personagens de um livro, de um conto; nossas verdades e a verossimilhança em nós assimiladas é uma construção poética da criatividade do autor. Em algum momento eu devo ter pensado em fugir, em escapar-lhe à mão, tornar-me o que eu pretendo ser, contruir-me conforme minhas próprias pretensões, como se eu fosse vivo. Em algum momento, meu autor se viu aflito por perder as rédeas do lápis que me contornava e me construía em palavras. Então, ele se viu forçado a rabiscar, a apagar parágrafos e parágrafos que me revelavam de maneira errônea, escritas conforme uma implosão da inconsciência, sem, no entanto, sua permissão. Este momento é epifânico: descobrir que minha vida é uma implosão criativa e que não posso escapar às determinações da verossimilhança, isso tudo me impressiona. Um autor escreve, cria seu mundo, elabora suas verdades e suas determinações que, mesmo não escapando ao mundo real e concreto, delimita a ilusão em que os personagens vivem. Posso ver onde terminam as fronteiras entre a realidade e a ficção, mas não posso transpô-las. Por isso, me sinto impelido por minhas emoções, por minhas ideias etc. Por isso mesmo, tento transgredi-las, contorná-las se possível. Por isso me desafio, desafio o que sinto, o que é de mim. Ora, se sou criação de um autor e suas verdades não me agradam, então quero descobrir novas verdades em novos autores. Quero me escrever, com minhas próprias mãos, se possível.

3. Fecho os olhos. Abro-os.

Aquele ali sou eu? Ainda sou eu ali?

Aquele lá, aquele não sou eu. Eu não estou aqui.

Prefiro não perguntar de novo. Sinto-me livre agora e gostaria de continuar. Minhas ideias saltitam na página e eu posso espalhar as palavras sem muito esforço para organizá-las. Elas dizem por si. Sou um precipitado caótico de ideias e emoções. Elas dizem por mim, elas me compõem, me contornam, me delineiam, me modelam, me impelem, numa batalha infinita entre razão e emoção, entre pensamentos dicotômicos, entre dilemas, entre maniqueísmos e inapeláveis desafios morais que enganam a lógica das dialéticas. Não sei se posso dizer que aquele ali sou eu. Se sou este, se penso como este, como poderia ser aquele outro? Eu não estou aqui.

Radiohead toca no mp4. Ela não quer falar, nem quer escutar, está absorta. Nos ouvidos, o fone deixa zumbir alguns versos, ressaltados pelo silêncio da casa vazia. Levanto-me, percorro a casa e o rangir do assoalho velho segue meus passos. Tiramos as madeiras das janelas; achei que sentiria menos a melancolia que transbordava na densidade e na escuridão daquela casa. Enganei-me. As luzes do sol só realçaram, num contraste intenso, a atmosfera solitária, melancolicamente angustiante e sombria que pairava ali. Agora eu entendo que a paisagem, como eu a vejo, nem sempre reflete as emoções do observador ou a elas corresponde. Chega de impressionismos desbaratados. Sinto-me mais real agora que sei disso. Antes eu me sentia como se fibras me conectassem a uma página polvilhada de palavras, na qual tudo se aglutinava e imiscuia, criando formas borradas e inteligíveis. Como se eu não pudesse me desprender das determinações do ambiente, ou da vontade de alguém. Agora posso me mover, me deslocar, agora os cenários diante de mim não me perseguem, simplesmente me abrigam. Agora não sinto que sou feito de símbolos, apesar de saber que isso não é verdade.

Infelizmente, estamos inacessíveis, com medo, com receio de errarmos em nossas palavras. É a dificuldade de comunicação do nosso tempo, apesar de todo o aparato tecnológico de alto grau de que dispomos e que nos conecta a todos os cantos do mundo. As relações humanas e os vínculos afetivos, de âmbitos metafísicos e sensitivos, já não atraem mais. Ela está deitada num colchão velho que trouxemos para nosso novo lar. Não sei bem como me sinto, mas reluto contra meus ciúmes. Penso na afeição que tenho por ela e na calmaria que ela suscita em mim. Volto à sala onde está o colchão e a vejo com lágrimas nos olhos. A música sempre desencadeia sensações tremendamente fortes para fazê-la expelir algumas lágrimas. Não acho que ela seja sensível, mas é a música, a força da música. É o movimento, o bailar das ondas sonoras, a harmonia dos instrumentos, as emoções que compõem a melodia, que a descrevem, que a contornam, que a delineiam, é a articulação da letra ao composto sonoro, a vontade inexorável e a tentativa frustrada de dar vazão à transbordante angústia de viver. É a música. Ela se apropria da música e de todos os sentimentos que esta reproduz do compositor, e os transforma nos seus. Por isso as lágrimas nos olhos.

“Você sabe que eu te amo”. “Eu te amo” é uma expressão que parece não nos encantar mais. Parece, agora, desmistificada. Tão banalizada, batida e rebatida. Não sei como chegamos a esse ponto, mas o amor se esvai com o tempo. Poderíamos encher de areia uma ampulheta e virá-la até que o último grão caísse e, então, chamar isso de amor. A diferença, incontestável por sinal, é que não sabemos de que tamanho é a ampulheta e o quanto de areia é preenchida quando começamos a amar.

Palavras. Como podem dizer tanto?

Minhas verdades.

Eu me pus a sua frente, bem diante dos seus olhos e disse: “você sabe que eu te amo”. Provavelmente ela não escutou, mas deve ter lido nos meus lábios ou captado por algum sexto sentido fenomenal. Ela sorriu, então. Ela me segurou pela nuca e me beijou. Beijamo-nos. Sempre gostei do seu beijo, é cauteloso, é suave e delicado – eu tento seguir o mesmo movimento, com a mesma delicadeza. Ela tem certa habilidade, uma habilidade inerente. Afinal, acho que consigo.

Nós transamos naquela tarde.

Trouxemos tinta naquele dia; iríamos ver o que fazer depois da faxina. Eu sempre gostei de cores, mas nunca soube aproveitá-las, ou melhor, organizá-las, combiná-las. Alguns artistas fazem bem isso e, quando vejo suas obras, sinto que, em algum lugar, essas tintas escoam e formam um riacho colorido que ligam o mundo ilusório concebido pelo artista ao nosso mundo convenientemente real. Não sou imediatamente absorvido, mas sei que posso adentrar nelas enquanto nado em algum sonho perdido. Pintar paredes não se compara à arte de pintar telas, é claro. Acho que tentávamos mudar aquele clima.

4. Mas palavras não dizem tudo.

Não poderia me descrever com palavras, me definir como tal, pois há verdade na minha existência verossimilhante. São palavras que compõem minha forma, e, no entanto, minha dor não seria maior se fossem moléculas e células. O que eu digo é que não quero me definir, me delinear – dou carta branca à imaginação.

Lá fora chove, algumas gotas colidem no chão, abafadas pela terra que amortece a queda d’água; outras espatifam-se como vidros ou cacos de vidros nas pedras ou no chão de concreto do quintal, ou nas folhas das poucas árvores. Algumas ainda entram pela janela aberta ao meu lado, entram tímidas e algumas se quebram e produzem uma espécie de fumaça d’água. Uma poça se forma no chão, e parte da água escorre em filetes por entre as entranhas retilíneas e labirínticas do assoalho. Vejo as diminutas correntezas seguirem seu caminho, uma vai em frente, outra atalha-se pela direita, outra ainda se perde pela esquerda para se reencontrar logo em frente com a primeira. Cada uma seguindo seu curso, delineada pela irregularidade do chão ou das peças de madeira que fazem o assoalho. É um labirinto simples, afinal. Brinco na diminuta poça d’água, descrevendo com o dedo alguma letra impensada que emerge legível do meu inconsciente. L, desenho. A poça é violada, mas como moléculas obedientes e teimosas que são as da água, a poça recompõe-se, apenas com algumas deformações, em sua forma original.

Algum ruído me trouxera de volta de minha distração. Me virei e a vi: espiava-me. Parecia tímida. Apegada à quina da entrada, ela tinha o rosto encostado na parede. Estava linda, parecia emanar uma delicadeza que diluía o ar sombrio e melancólico daquela sala, daquela tarde chuvosa. Ficou-me a espreitar. A chuva não cessava. Levantei-me e dei alguns passos até ela, mas percebi que não queria que eu me aproximasse. Dei mais alguns passos e ela, como se tentasse fugir timidamente, recuou, adentrando-se na penumbra do quarto. “Não quero que me toque”, disse. Não conseguia raciocinar, nada me estava claro, não conseguia ao menos conjecturar sobre tudo aquilo. Senti-me constrangido. Um medo se apossou de mim. De nós dois.

Medo de nos tocarmos, de flutuarmos, de diluirmos na vida.

Um homem não pode voar porque tem medo de altura.

Não conseguimos nos tocar.

5. Ela ainda não sabia, mas aceitara.

Não consegui me excitar. Não tive ciúmes, mas não consegui me excitar. Algum pudor se traduzia em escrúpulo, ou vice-versa, ou eu estava exaltado demais nessa situação inusitada e completamente inédita para mim. Ela, de costas, curvava-se para alcançá-lo em seu pescoço e abraçá-lo. Ele perdia-se naqueles caminhos, naquelas curvas. Ela inclinava-se voluptuosamente a sua frente, enquanto ele segurava ora em sua cintura ora acariciava seus seios. Ela prometia pecados, transpirava pecados; aquela abundância de secreções, que se misturavam, que escorriam, cheirava a pecado. Alguma forma de paixão inundou a sala, ele não a agredia, faziam sexo, mas não deixavam transparecer o caos e o turbilhão de pensamentos frenéticos e indomáveis dentro da cabeça, nem a tensão do momento. Ele a apalpava e a acariciava como se não quisesse deixar nada escapar de seu tato. Seus sentidos pareciam aguçados. Entregavam-se à volúpia, deixavam os espíritos confluírem-se e se fundiam em alguma outra dimensão. Transcendiam. Eu não parecia estar lá. Tinha a câmera na mão e tentava não perder um detalhe do que faziam, mas me perdia nos pensamentos e nas dúvidas e na memória e na própria imagem na minha frente. Algum impacto delirante me atingira e eu parecia fazer parte do filme que eu mesmo fazia, como se manejasse a câmera automaticamente, como um diretor que conhece o roteiro e sabe o próximo passo, o próximo gesto dos personagens, e capta tudo. Descobri que não havia incongruências entre o que eu via e o que eu captava com a câmera; pareceu-me que eu havia redescoberto o olhar, o ver, o assistir. Descobri que do outro lado, do meu lado, onde eu estava, existia vida que se conectava de alguma forma à cena que eu presenciava. Fui absorvido, como sempre ou quase sempre sou quando algum filme me arrebata. Percebi-me vivo detrás da câmera, diante da imagem; havia uma incongruência ali que me punha em confronto com as idéias e concepções traduzidas pela imagem; eu não tentei relutar, mas acatar as imagens, como espectador e não como crítico. E como espectador fui golpeado pelas surpresas que não atendiam às minhas expectativas. Como se nem ao menos tivesse lido a sinopse. Tentei não deixar transparecer as marcas que me deixavam os golpes. Talvez não o tivesse conseguido, se os personagens do filme não fossem só integrantes de um mundo que só a eles era assimilado e se não estivessem embalados pelo delírio. Uma janela deixava-se transluzir, a tarde recebia os últimos golpes e empurrões e se precipitava, titubeante, em cair. Concentrei-me na câmera e na imagem; mas algo nos ligava por fibras, mesmo que nossas ideias se confrontassem. Ela oscilava e deliberadamente havia se entregado, deixara-se conduzir pelo outro corpo. Era uma dança mística, sensual, e não havia compasso nem ritmo previsível, apenas o movimento mágico dos espíritos que transcendiam. Eu quis transferir esse sensualismo, essa dança, para a imagem, quis que ela fluísse. Movimentei-me com a câmera e tentei entrar naquela harmonia; movimentava-me com fluidez, suavemente, fazendo a câmera oscilar por vários ângulos. Tentei compactuar aquele espírito à imagem. Tudo transpirava sensualismo. Eles se tocavam sem relutância. Foi lindo. E eu tinha me deixado levar. O orgasmo foi explosivo, o ápice. Desabaram, extenuados, e abraçaram-se. Desliguei a câmera, mas o filme ainda não tinha acabado.

Não estávamos realmente constrangidos, mas ele foi embora primeiro. Ficamos eu e ela, cada um em um canto diferente da casa. Ela tinha se enxaguado, mas já estava vestida quando entrei no quarto. Ela esboçou um sorriso, mas senti algo de insincero nele. Não que estivesse constrangida. Talvez quisesse me provar algo, ou desmentir algo. Mas estava feito. Depois de tudo... não sei, talvez tivesse me precipitado ao pensar assim. Eu a beijei – sabia que, de algum modo, ainda nos amávamos. Íamos embora, mas eu parei para observar a casa. A tarde tombara, mas a noite ainda não se tinha acomodado. Não havia fontes luminosas à vista e eu me perguntava de onde vinha aquela luz tênue que pairava sobre o assoalho. Melancólica. Extenuada. Quis acreditar que fosse imanente à casa.

Ela saíra e me esperava do lado de fora. De repente, tive receio em deixar a casa, alguma náusea parecia me consumir ao ver a porta de saída aberta para mim. Lembrei-me de muitos momentos ali, principalmente daquela tarde, de como eles se amavam. Eu me perguntava se tinha os amado de coração. Dei uma última olhada, parecia o quarto escuro e desolador que era a minha existência. A náusea me deixara, mas ainda tinha receio. Pareceu-me que seria minha última vez naquela casa, mas nunca confiei em minha intuição. Algo prendia minha alma, chamava por ela. Mas ela não tinha nome. Eu fui.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Bang Bang, um fime de Andrea Tonacci


Não seria de todo errado dizer que Bang Bang não tem narrativa; poderíamos adotar essa afirmação e a partir dela discorrer sobre sua proposta e seus motivos. É certo que Bang Bang desconstrói a narrativa clássica do cinema, brinca e satiriza a curiosidade do espectador em saber qual desfecho terá a estória, desmistifica o herói enquanto herói e o vilão enquanto vilão etc. Mas a maneira como faz Andrea Tonacci, diretor do filme de 70, vai além da desconstrução e do embaralhamento dos fatos narrativos. Tonacci simplesmente monta, desmonta e remonta parte dessa narrativa. Sim, apenas parte dela, retalhando-a e a discrimando de seu todo, não oferecendo um início nem um desfecho aparentes, mas simplesmente remontando variações em torno de uma situação. Dando tiros às cegas (e não é gratúita a expressão), Tonacci constrói seu cinema, desconstruindo toda noção convencional da coerência do fio narrativo, procurando sempre novas possibilidades estéticas.

Bang Bang, no entanto, não é apenas a desconstrução narrativa de um filme para analisá-lo em sua condição de cinema. Tonacci cria em torno da situação clássica de perseguição, tão recorrente no cinema hollywoodiano (e essa escolha não é à toa), hipóteses várias que correspondem ao universo de possibilidades oferecido pelo cinema. Bandidos esdrúxulos e caricatos, um mocinho que não se vê como herói e a mocinha misteriosa que dança para a câmera, em frente a um plano de fundo ilustrado por elementos essencialmente urbanos: edifícios, construções etc. Aliás, a urbanidade é patente no filme, não só como plano de fundo, ou mesmo como cenário, mas como habitat natural dessas figuras grotescas que perambulam por aí sem objetivo aparente que não botar as garras no mocinho. Os elementos que compõem esse urbanismo exacerbado, a concretude, os mecanismos dos elevadores, amontoado de peças automobilísticas sucateadas, tudo isso realça a imundice, o caos, a exasperação da atmosfera urbana onde habitam os tais personagens dessa estória, que não é propriamente uma estória, já que a força motriz que move o chamado cinema clássico (a trama) condensa todo o filme e não oferece desfecho e muito menos explicação cabível para a perseguição. Tonacci brinca com nossa visão limitada, condicionada pelo cinema clássico, pelas estórias clássicas, de começo, meio e fim.




Próprio ao Cinema Marginal e sua filosofia, "já que não podemos fazer nada, a gente se avacalha e se esculhama", o filme de Tonacci é sujo e maculado por excelência. Esse cenário brutalmente urbano, caótico, sucateado, confere à imagem uma textura bastante exasperada, suja, imunda. É nele que os personagens atuarão (no próprio termo referente a ator, pois eles nem ao menos tentam nos persuadir, disfarçando-se de personagens, porque eles têm consciência do que realmente são: atores), onde a perseguição começará e recomeçará sem nenhum desfecho definitivo. Essa consciência de ator é também um artifício para assegurar a ideia de consciência de uma realidade que cerca a ficção. A câmera não mais se esconde para registrar a ação dos personagens e criar assim uma ficção verossímil suficiente para convencer o espectador. A cena no banheiro, em que o personagem, com máscara de macaco, canta "Eu sonhei que tu estavas tão linda", desfaz toda noção de barreira intransponível entre realidade e ficção. Ao mostrar a câmera, pelo espelho, Tonacci quebra essa barreira e instaura dentro da ficção o aparelho causador de sua própria condição. Em sua busca pelo que pode ser cinema, ele funde realidade e ficção, desmistifica a farsa do ator e joga um balde tinta na quarta parede do cinema, a parede invisível.


Pode-se pensar, a partir de então, que as ações e os olhares dos personagens para a câmera não mais serão dirigidos apenas ao espectador, mas para a própria câmera, posto que agora sua presença física e participativa é reconhecida e admitida e se encontra na mesma dimensão ficcional a que eles pertencem.

A câmera agora faz parte do espaço e de toda uma dimensão ficcional que também a abarca, junto aos personagens. Portanto, a situação de perseguição nem sempre corresponderá ao bandido que corre atrás do mocinho - essa ideia é aqui deturpada; agora não só o bandido persegue o mocinho, como a cãmera (tanto em sua função registrativa como em sua condição física) os persegue. Não que os queira presos (porque muitas vezes são capturados e logo na sequência estão livres de novo), mas a câmera quer registrar a reação por parte dos personagens. Ela os estimula, eles reagem. Numa cena, em que um mágico à Meliés brinca com a composição do quadro, nossos heróis (pois acho que nem ao menos podemos definir quem é herói e vilão neste filme) aparecem e desaparecem, fazendo poses altivas, que confirmem sua posição como herói ou vilão, para, depois, fazer desmoronar essas imagens, tornando-as até cômicas de tão desajeitadas. Quando, por exemplo, na mesma cena do mágico à Meliés, o cego perde seus óculos e começa a procurá-lo, tombando em tudo pelo cenário, e um dos bandidos come sem parar, emporcalhando-se todo.

No entanto, mesmo em suas sequências mais desconexas, ainda se encontra no espaço amostral desse cinema, uma cena de grande carga dramática: a cena em que os bandidos sofrem um acidente. Vemos no quadro, que afasta-se do chão lentamente, um carro em chamas, um homem estirado no chão, os bandidos que, após terem invadido um carro, vão embora, deixando de fora do veículo uma mulher que vinha nele. E, de fundo, uma música triste. Logo após um dos bandidos tenta contar a estória do filme e estabelecer, finalmente, um fio narrativo coerente. O que não acontece. O bandido é então acometido por uma torta na cara, enviada por alguém provavelmente da equipe de filmagem de Tonacci. Ele compreende a mensagem e desiste de continuar a estória.



O filme termina com risadas debochadas dos bastidores, enquanto um dos personagens insiste em cantar "Eu sonhei que tu estavas tão linda", enquanto se veste no banheiro. Parece então que já vimos de tudo no cinema. Talvez.

Bang Bang é a contribuição do Brasil à pesquisa estética que era proposta e realizada em praticamente todo o mundo, com maior vigor nas décadas de 60 e 70. Tonacci vai em busca de um novo cinema, sem fórmulas premeditadas, sem convencionalismos, sem técnicas manjadas, e nos oferece uma visão ousada e inovadora. Quebra antigos conceitos e lança sementes para o florescimento de outros. E assume a impossibilidade de velar a dimensão ficcional do cinema.